sábado, 6 de maio de 2017

SARDES - VIVOS, PORÉM MORTOS!

E ao anjo da igreja que está em Sardes escreve: Isto diz o que tem os sete espíritos de Deus, e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto.
Sê vigilante, e confirma os restantes, que estavam para morrer; porque não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus.
Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei.
Mas também tens em Sardes algumas poucas pessoas que não contaminaram suas vestes, e comigo andarão de branco; porquanto são dignas disso.
O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos.
Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.

     ·      A história da igreja de Sardes tem muito a ver com a história da cidade de Sardes.

     ·     A glória de Sardes estava no seu passado. Sardes foi a capital da Lídia no século VII a.C., viveu seu tempo áureo nos dias do rei Creso. Era uma das cidades mais magníficas do mundo nesse tempo.

    ·  Situada no alto de uma colina, amuralhada e fortificada, sentia-se imbatível e inexpugnável. Seus soldados e habitantes pensavam que jamais cairiam nas mãos dos inimigos. De fato a cidade jamais fora derrotada por um confronto direto. Seus habitantes eram orgulhosos, arrogantes e autoconfiantes.

    ·  Mas a cidade orgulhosa caiu nas mãos do rei Ciro da Pérsia em 529 a.C., quando este cercou a cidade por 14 dias, e quando seus soldados estavam dormindo, ele penetrou com seus soldados por um buraco na muralha, o único lugar vulnerável, e dominou a cidade. Mais tarde, em 218 a.C., Antíoco Epifânio dominou a cidade da mesma forma. Os membros da igreja entenderam claramente o que Jesus estava dizendo, quando afirmou: “Sede vigilantes!... Senão virei como ladrão da noite!”.

    ·  A cidade foi reconstruída no período de Alexandre o Magno e dedicada à deusa Cibele. Essa divindade padroeira era creditada com poder especial de restaurar vida dos mortos.

       ·     No ano 17 d.C., Sardes foi parcialmente destruída por um terremoto e reconstruída pelo imperador Tibério. A cidade tornou-se famosa pelo alto grau de imoralidade que a invadiu e a decadência que a dominou.

      ·   É nesse contexto que vemos JESUS enviando essa carta à igreja. Sardes era uma igreja poderosa, dona de um grande nome. Uma igreja que tinha fama, mas não vida. Tinha performance, mas não integridade. Tinha obras, mas não tinha dignidade.

DIAGNÓSTICO

      ·    As palavras de Jesus à igreja foram mais bombásticas do que o terremoto que destruiu a cidade no ano 17 d.C.

      ·   A igreja tinha adquirido o nome. A fama da igreja era notável. A igreja gozava de grande reputação na cidade. Nenhuma falsa doutrina estava prosperando na comunidade.

      ·   A igreja de Sardes não:

      1)      Abandonou o primeiro amor como a igreja de Éfeso;
      2)      Dava ouvidos aos balaamitas como a igreja de Pérgamo;
      3)      Toleravam a profetiza Jezabel como a igreja de Tiatira;
      4)      Não tinham pouca força como a igreja de Filadélfia;
      5)      Não eram mornos como a igreja de Laodicéia.

    · O diabo não precisou perseguir essa igreja de fora para dentro. Eles estavam sendo mortos e derrotados pelos seus próprios pecados.

       ·    A igreja parecia mais um cemitério espiritual, do que um hospital para os enfermos.

MORTE ESPIRITUAL

       ·    O mundanismo adoece a igreja.

       ·   O pecado mata a vontade de buscar as coisas de Deus.

       ·  O pecado mata os sentimentos mais elevados e petrifica o coração. No começo vêm dúvidas, medo, tristeza, depois a consciência cauteriza.

OS CRENTES NA IGREJA DE SARDES

      ·         Promoviam o próprio nome, não o de Cristo.

      ·         Honravam à Deus com seus lábios, mas o coração estava longe do Senhor (Is 29:13).

      ·         A vida deles estava manchados pelo pecado.

      ·         Cantavam hinos de adoração, mas a mente estava longe do Senhor.

      ·         Pregavam com ardor, mas penas para exibir a sua cultura.

      ·         A maioria dos crentes estava contaminando as suas vestiduras. Isso é o símbolo da corrupção.
  
     ·         Por baixo da aparência piedosa daquela respeitável congregação, havia impureza escondida na vida dos seus membros.

      ·         Aqueles crentes também viviam uma vida moralmente frouxa.

      ·         O mundo estava entrando dentro da igreja de Sardes.

PALAVRAS DE JESUS

      ·         (v.1) Conheço as suas obras: Jesus estava dizendo que, por mais que diziam que a igreja estava viva, Ele, o criador da igreja a encontrava morta.

       ·         (v.2) Sê vigilante (ou “fique atento”): O imperativo de Jesus era para eles acordarem e tomarem uma atitude.

      ·         (v.3a) Lembre-se do que tens recebido e ouvido, obedeça e arrependa-se: A igreja havia se esquecido completamente da Palavra.

       ·         (v.3b) Se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que horas virei sobre ti: Pela soberba e a falta de vigilância, eles caíram nas mãos do rei Ciro da Pérsia em 529 a.C., e mais tarde, em 218 a.C., nas mãos de Antíoco Epifânio. Jesus estava os alertando para não cometerem o mesmo erro.

A CURA PARA UMA IGREJA MORTA

     ·         Voltar para a Palavra. O verdadeiro avivamento tem na Bíblia sua base, fonte, motivação, seu limite e propósito.

      ·         Vigilância espiritual. A igreja precisa ser vigilante contra as ciladas de satanás e contra a tentação do pecado. Os crentes devem fugir de lugares, situações e pessoas que podem ser um laço para os seus pés.
  
      ·         O diabo não atacou a igreja de Sardes com perseguições e nem com heresias, mas a minou com o mundanismo. Os crentes não estão sendo mortos pela espada do mundo, mas pela amizade com o mundo.

       ·         A igreja precisa ouvir a voz de Cristo, pois:

a)      Em Éfeso, a igreja abandonou o primeiro amor, mas ainda tinha aqueles que odiavam as práticas dos nicolaítas;

b)      Em Esmirna, a igreja era pobre materialmente, mas Jesus os via ricos espiritualmente;

c)       Em Pérgamo, a igreja tinha algumas pessoas que se apegavam aos ensinos de Balaaão, mas ainda havia aqueles que não abandonaram a fé em Cristo;

d)      Em Tiatira, a igreja tolerava Jezabel, mas tinha aqueles que estavam fazendo obras maravilhosas;

e)      Em Filadélfia, a igreja tinha pouca força, mas guardava o nome do Senhor;


      ·         Cristo sempre preservará aqueles que andam corretamente na sua vontade.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Salmo 6 - Charles Spurgeon

Título

Este Salmo é comumente conhecido como o primeiro dos Salmo Penitenciais, e certamente sua linguagem assenta-se bem nos lábios de um penitente, pois ele expressa ao mesmo tempo as lágrimas (Salmo 6.3,6,7), a humilhação (6.2,4), e o ódio ao pecado (6.8), que são marcas infalíveis de um espírito contrito quando ele volta-se para Deus. Ó Espírito Santo, gera em nós a genuína contrição da qual não necessitamos nos arrepender.
O Título deste Salmo é: “Ao mestre músico sobre Neginoth com Sheminith , um Salmo de Davi,” isto é, para o mestre músico com instrumentos de cordas, sobre oito, provavelmente uma oitava. Alguns pensam referir-se à clave para baixo ou tenor, que certamente adaptar-se-ia bem a esta lamentosa ode. Mas nós não somos capazes de entender estes antigos termos musicais, e mesmo o termo “Selah,” ainda permanece intraduzível. Esta contudo, não deveria ser uma dificuldade em nosso caminho. Nós provavelmente perderíamos ainda muito pouco por nossa ignorância, e isto poderia servir para confirmar a nossa fé. É uma prova da grande antiguidade deste Salmo que ele contenha palavras cujo significado está perdido mesmo para os melhores eruditos da língua hebraica. Seguramente estas são apenas provas incidentais (eu quase poderia dizer acidentais, se não cresse que elas sejam designadas por Deus), de sua existência, o que eles professam ser, os antigos escritos do Rei Davi dos tempos antigos.

Divisão

Você observará que o Salmo é facilmente divisível em duas partes. Primeiro, há a petição do salmista em sua grande agonia, abrangendo do versículo 1 até o final do versículo 7. Então nós temos, do versículo 8 ao final, um tema completamente diferente. O salmista mudou o seu tom. Ele deixa a clave menor, e coloca-se sob sublime tensão. Ele direciona sua nota para a alta clave da confiança, e declara que Deus ouviu sua oração, e libertou-o de todos os seus problemas.

Salmo 6.1-7

1. Senhor , não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor.
2. Tem compaixão de mim, Senhor , por que eu me sinto debilitado; sara-me, Senhor ; porque meus ossos estão abalados.
3. Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, Senhor , até quando?
4. Volta-te, Senhor , e livra a minha alma; salva-me por tua graça.
5. Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro quem te dará louvor?
6. Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago.
7. Meus olhos, de mágoa, se acham amortecidos, envelhecem por causa de todos os meus inimigos.

Tendo lido através da primeira divisão, a fim de vê-la como um todo, nós olharemos, nós a consideraremos agora versículo por versículo.

Salmo 6.1

“Senhor, não me repreendas na tua ira.” O salmista está `plenamente consciente de que merece ser repreendido, e sente, além disso, que a repreensão de uma forma ou outra vem sobre ele, se não para condenação, ainda assim para convicção e santificação. “O milho é limpo com vento, e a alma com castigos.” Era tolice orar contra a mão dourada que enriquece-nos com seus golpes. Ele não pede que a repreensão possa ser totalmente contida, pois ele pode assim perder uma dádiva oculta; mas: “ Senhor, não me repreendas na tua ira.” Se tu lembraste-me de meu pecado, isto é bom, mas, oh, não lembre-me dele como alguém inflamado contra mim, a menos que o coração de teu servo devesse cair em desespero. Assim disse Jeremias: “Corrige-me, ó Senhor, mas com medida justa, não na tua ira, para que não me reduzas a nada.” Eu sei que eu deveria ser punido, e embora eu me esquive de tua vara, ainda assim eu sinto que ela será para meu benefício; mas, oh, meu Deus, “não me castigues no teu furor,” a menos que a vara se torne uma espada, a menos que ferindo, tu devesses também destruir. Então nós podemos orar que as punições de nosso gracioso Deus, se elas não podem ser inteiramente removidas, podem ao menos ser suavizadas pela percepção que são “não em ira, mas em seu amável pacto de amor.”

Salmo 6.2,3

“Tem compaixão de mim, Senhor, por que eu me sinto debilitado.” Embora eu mereça a destruição, permita ainda tua misericórdia apiedar-se de minha fragilidade. Este é o meio correto de suplicar a Deus se desejamos prevalecer. Não apresente sua bondade ou grandeza, mas alegue seu pecado e pequenez. Clame: “Eu estou fraco,” portanto, Senhor, dá-me força e não me venha me abater. Não derrame a fúria de tua tormenta contra um vaso tão fraco. Tempere o vento para o cordeiro tosquiado. Seja terno e compassivo para com uma pobre e murcha flor, e não a quebre de sua haste. Certamente este é o pedido que um homem doente faria para mover a piedade de seu companheiro se ele estivesse se esforçando com ele: “Reparta gentilmente comigo ‘porque eu estou fraco.'” Um senso de pecado tinha assim espoliado o orgulho do salmista, e lançado fora sua exaltada força, que ele achou-se fraco para obedecer a lei, fraco pela aflição em que estava, tão fraco, talvez, para descansar apoiado na promessa. “Eu estou fraco.” O original pode ser lido: “Eu sou alguém que sucumbe,” ou debilitado como uma planta ressecada. Ah! Amado, nós sabemos o que isto significa, porque nós, também, temos visto nossa glória desbotada, e nossa beleza como uma flor murcha.
“Sara-me, Senhor; porque meus ossos estão abalados.” Aqui ele ora por cura , não somente pelo mitigar da doença sofrida, mas por sua inteira remoção, e o curar das feridas que tinham surgido dela. Seus ossos foram “abalados,” como o hebreu o tinha. Seu terror tinha se tornado tão grande que todos seus ossos se agitaram, não somente sua carne tremeu, mas os ossos, os sólidos pilares da virilidade, se fizeram tremer. “Meus ossos estão abalados.” Ah, quando a alma tem um senso de pecado, isto é suficiente para fazer os ossos tremerem; isto é suficiente para fazer os pelos de um homem se ouriçarem ao ver as chamas do inferno abaixo dele, e um Deus irado sobre ele, e perigo e dúvida cercando-o. Bem poderia ele dizer: “Meus ossos estão abalados.” Entretanto, nós deveríamos ao menos imaginar que ele estava simplesmente corporalmente doente – embora corporalmente doente possa ser o sinal exterior – o salmista segue em frente dizendo: “Também a minha alma está profundamente perturbada.” Perturbação da alma e perturbação de toda a alma. Não importa que os ossos tremam se a alma estiver firme, mas quando a própria alma está também muitíssimo abalada, isto é agonia de fato. “mas tu, Senhor, até quando?” Esta sentença termina abruptamente, porque as palavras falham, e o pesar afoga-se no pequeno conforto que amanheceu sobre ele. O salmista, contudo, tinha ainda alguma esperança; mas esta esperança estava somente em seu Deus. Ele portanto clama: “Senhor, até quando?” a vinda de Cristo para o interior da alma em sua túnica sacerdotal de graça é a grande esperança da alma penitente; e , verdadeiramente, de um modo ou outro, o aparecimento de Cristo é, e sempre tem sido, a esperança dos santos.
A exclamação favorita de Calvino era “ Domine usque quo ” – “Senhor, até quando?” Não poderia a sua dor mais aguda, durante uma vida de angústia, forçá-lo a qualquer outra palavra. Seguramente este é o clamor dos santos sob o altar: : Senhor, até quando?” E este deveria ser o clamor dos santos esperando pelas glórias do milênio: “Porque demoram em vir seus carros; Senhor, até quando?” Aqueles de nós que têm passado através da convicção de pecado conheceram o que era contar nossos minutos horas, e nossas horas anos, enquanto a misericórdia demorava em vir. Nós esperávamos pelo alvorecer da graça, como aqueles que esperam pela manhã. Ardentemente nosso espírito pediu: “Ó Senhor até quando?”

Salmo 6.4

“ Volta-te, Senhor, e livra a minha alma.” Como a ausência de Deus foi a principal causa de sua miséria, assim o seu retorno seria suficiente para livra-lo do seu problema. “Oh salva-me por causa das tuas misericórdias.” Ele sabe onde olhar, e sobre qual braço descansar. Ele não descansa sobre a mão esquerda da justiça de Deus, mas sobre sua destra de misericórdia. Ele conhecia sua iniqüidade muito bem para pensar em mérito, ou implorar por para qualquer coisa além da graça de Deus.
“Por causa das tuas misericórdias.” Que pedido! O quanto ele é valioso para com Deus! Se nós nos voltamos para a justiça, que pedido podemos fazer? Mas se nós nos voltamos para a misericórdia , nós podemos ainda clamar, apesar da grandeza de nossa culpa: “Salva-me por causa de tuas misericórdias.”
Observe quão freqüentemente Davi implora pelo nome de Jehovah, que sempre é pretendido onde a palavra Senhor é escrita com letras maiúsculas. Aqui nós a encontramos cinco vezes em quatro versículos. Não é esta a prova de que o glorioso nome é tomado para consolação para os santos tentados? Eternidade, Infinitude, Imutabilidade, Auto-existência, tudo está no nome de Jehovah, e tudo isto está repleto de conforto.

Salmo 6.5

Agora Davi está em grande temor de morte – morte temporal, e talvez, morte eterna. Leia a passagem como você desejar; o versículo seguinte está cheio de poder: “Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro quem te dará louvor?” Os cemitérios das igrejas são lugares silenciosos; a abóbada dos sepulcros não ecoam sons. Terra úmida cobre bocas mudas. “Ó Senhor?” diz ele, “se tiveres misericórdia de mim eu o louvarei. Se eu morrer, então o meu mortal louvor deverá ser suspenso, e eu perecer no inferno, então tu não terás de mim qualquer gratidão. Melodias de gratidão não podem erguer-se do flamejante fosso do inferno. Na verdade tu, indubitavelmente, serás glorificado, mesmo com minha eterna condenação, mas então, Senhor, eu não poderei glorificar-te voluntariamente; e entre os filhos dos homens, haverá um coração a menos para bendizer-te.” Ah! Pobres e vacilantes pecadores, possa o Senhor ajuda-los a usar este impetuoso argumento. É para a glória de Deus que um pecador deveria ser salvo. Quando nós buscamos perdão, nós não estamos pedindo a Deus para fazer aquilo que irá sujar seu estandarte, ou colocar uma mancha em seu brasão. Ele deleita-se em misericórdia. É seu atributo peculiar, favorito. Misericórdia honra a Deus. Não somos nós mesmos que dizemos: “A misericórdia abençoa aquele que dá, e aquele que recebe?” E seguramente, em algum senso mais divino, esta é verdade de Deus, que, quando ele concede misericórdia, glorifica a si mesmo.

Salmo 6.6,7

O salmista dá uma terrível descrição de sua longa agonia: “Estou cansado de tanto gemer.” Ele tinha gemido até que sua garganta estivesse rouca; ele tinha clamado pela misericórdia até a oração tornar-se difícil. O povo de Deus pode gemer, mas não pode resmungar. Sim, eles devem gemer, estando sobrecarregados, ou eles nunca bradarão no dia da libertação. A próxima sentença, nós pensamos, não está corretamente traduzida. Ela deveria ser: “Eu farei minha cama nadar todas as noites,” (quando a natureza necessita descansar, e quando eu estou mais a sós com Deus). Isto é dizer, minha tristeza, agora mesmo, é terrível, mas se Deus não salvar-me logo, ela não permanecerá assim, mas aumentará, até minhas lágrimas serem tantas, que minha própria cama nadará nelas. Uma descrição mais daquilo que ele temia acontecer, do que daquilo que tinha realmente ocorrido. Não podem nossos maus pressentimento de um futuro infortúnio tornarem-se argumentos que encorajam a fé quando buscamos pela misericórdia no presente? “Eu alago o meu leito com minhas lágrimas. Meus olhos, de mágoa, se acham amortecidos, envelhecem por causa de todos os meus inimigos.” Como os olhos de um velho homem tornam-se turvos com os anos, assim diz Davi, meus olhos têm-se tornado vermelhos e débeis pelo lacrimejar. A convicção às vezes tem tal efeito sobre o corpo, que até mesmo os órgãos exteriores são feitos sofrer. Não pode isto explicar algumas das convulsões e ataques histéricos que têm sido experimentados sob a convicção nos avivamentos na Irlanda? É surpreendente que alguns devam ser lançados em terra, e comecem a chorar em alta voz, quando nós encontramos o próprio Davi fez sua cama nadar, e envelheceu enquanto ele estava sob a pesada mão de Deus? Ah! Irmãos, não é algo luminoso alguém sentir-se um pecador, condenado à separação de Deus. A linguagem deste Salmo não é imposta nem forçada, mas perfeitamente natural para alguém em tal tristeza e dificuldade.

Salmo 6.8-10

8. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniqüidade, porque o Senhor ouviu a voz do meu lamento;
9. O Senhor ouviu a minha súplica; o Senhor acolhe a minha oração.
10. Envergonhem-se e sejam sobremodo perturbados todos os meus inimigos; retirem-se, de súbito, cobertos de vexame.

Salmo 6.8

Até aqui tudo tinha sido tristeza e desconsolo, mas agora –
“Vossas harpas, vós santos tementes
Tirai-as dos salgueiros”
Vós deveis ter vossos tempos de lamento, mas, sejam eles curtos. Levantai-vos, levantai-vos, de vosso monturo! Abandone sua roupas de saco e cinzas! O lamento pode durar por uma noite, mas a alegria vem pela manhã
Davi achou paz, e erguendo-se de seus joelhos começou a varrer todo o mal de sua casa. “Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniqüidade.” O melhor remédio contra um homem mau é uma longa distância entre nós e ele. “Vá embora; eu não posso ter comunhão contigo.” O arrependimento é uma coisa útil. Não é suficiente lamentar a profanação do templo do coração, nós devemos escorraçar os compradores e vendedores, e derrubar as mesas dos cambistas. Um pecador perdoado odiará os pecados que custaram ao Salvador o seu sangue. Graça e pecado são contenciosos vizinhos, e um ou outro deverá ser derrotado.
“Porque o Senhor ouviu a voz do meu lamento,” Que fino hebraísmo, e que grande poesia é em inglês! “Ele ouviu a voz do meu lamento.” Há uma voz no lamento? O lamento fala? Em qual linguagem expressa o seu significado? Por que, nesta língua universal, que é conhecida e entendida em toda a terra, e mesmo acima, no céu. Quando um homem lamenta, seja ele judeu ou gentio, bárbaro, cita, servo ou livre, o significado é o mesmo. O lamento é a eloqüência do sofrimento. Ele é um fluente orador, não necessitado de interprete, mas entendido por todos. Não é maravilhoso crer que nossas lágrimas são entendidas mesmo quando nossas palavra falham. Aprendamos a pensar de nossas lágrimas como orações líquidas, e do lamento como um constante gotejar da impertinente intercessão que certamente mostrará sua reta direção dentro do genuíno coração de misericórdia, a despeito das pedregosas dificuldades que obstruem este caminho. Meu Deus, eu “lamentarei” quando eu não puder rogar, porque tu ouves a voz do meu lamento.

Salmo 6.9

“O Senhor ouviu a minha súplica.” O Espírito Santo tinha trabalhado dentro da mente do salmista a confiança que sua oração foi ouvida. Este é freqüentemente o privilégio dos santos. Orando a oração da fé, eles são geralmente assegurados que têm prevalecido com Deus. Nós lemos de Lutero que, tendo em uma ocasião batalhado duramente com Deus em oração, ele saiu pulando de sua câmara gritando, “ Vicimus, vicimus, ” isto é, “Nós conquistamos, nós prevalecemos com Deus.” Firme confiança não é sonho vazio, pois quando o Espírito Santo no-la concede, nós conhecemos sua realidade, e não podemos duvidar, mesmo que todos os homens ridicularizem nossa ousadia.

Salmo 6.10

“Envergonhem-se e sejam sobremodo perturbados todos os meus inimigos.” Isto é mais uma profecia do que uma imprecação, ela pode ser lida no futuro. “Todos os meus inimigos serão envergonhados e sobremodo perturbados.” Eles se retirarão, de súbito, cobertos de vexame, – num momento – sua maldição virá sobre eles repentinamente. O dia da condenação é o dia da maldição, a ambos são certos e podem ser repentinos. Os romanos costumavam dizer: “os pés da Deidade vingadora são calçados com pelos.” Com passos silenciosos a vingança se aproxima de sua vítima, e repentina e esmagador será seu ataque destruidor. Se isto fosse uma imprecação, nós deveríamos lembrar que a linguagem da antiga dispensação não é a mesma da Nova. Nós oramos por nossos inimigos, não contra eles. Deus tenha misericórdia deles, e traga-os para o caminho reto.
Assim o Salmo, como aquele que o precede, mostra as diferentes situações do justo e do ímpio. Ó Senhor, faça-nos ser numerados com o teu povo, agora e para sempre!


Fonte: O texto acima traduzido são excertos do comentário do Salmo 6, do livro Treasury of David, no qual Spurgeon comentou todos os salmos e reuniu diversos e excelentes comentários de outros comentaristas, teólogos e pastores.

domingo, 14 de agosto de 2016

DO SOL INVICTO A JESUS CRISTO: A CONVERSÃO DE CONSTANTINO

Muito já foi escrito e discutido sobre a conversão de Constantino. Pouco depois de ela ter acontecido houve escritores cristãos, como veremos no próximo capítulo, que quiseram mostrar que essa conversão era o ponto culminante de toda a história da igreja. Outros têm dito que Constantino não passava de um político hábil que percebeu as vantagens que poderia obter com uma “conversão” e, por isso, decidiu juntar-se à sua causa do cristianismo.
As duas interpretações são exageradas. Bastar ler os documentos da época para ver que a conversão de Constantino foi bem diferente da conversão comum de um cristão. Quando algum pagão se convertia, ele era submetido a um longo processo de disciplina e ensino, a fim de que houvesse certeza de que o novo convertido entendia e vivia sua nova fé, e então era batizado. O novo convertido, então, seguia seu bispo como guia e pastor, para descobrir o significado da sua fé nas situações concretas da vida.
O caso de Constantino foi bem diferente. Mesmo depois da batalha da Ponte Mílvia, e durante toda a sua vida, Constantino nunca se submeteu em nenhum aspecto à autoridade pastoral da igreja. Ele contava com o conselho de cristãos, como o sábio Lactando (tutor de seu filho Crispo) e o bispo Óssio de Córdoba (seu conselheiro para assuntos eclesiásticos), mas Constantino sempre se reservou o direito de determinar ele mesmo suas atitudes religiosas, pois considerava-se “bispo dos bispos”. Repetidamente, mesmo depois da sua conversão, Constantino participou de rituais pagãos que eram proibidos aos cristãos comuns, e os bispos não levantaram a voz em protesto e condenação, como teriam feito em qualquer outro caso.
O que acontecia não era somente que Constantino era uma pessoa ao mesmo tempo poderosa e irascível. O imperador também, apesar da sua política cada vez mais favorável aos cristãos e das suas afirmações de crer no poder de Jesus Cristo, tecnicamente pelo menos não era cristão, pois não tinha se submetido ao batismo. Constantino, na verdade, só foi batizado no leito de sua morte. De maneira que qualquer política ou edito em favor dos cristãos, da parte do imperador, era recebido pela igreja como um favor feito por um amigo ou simpatizante. Qualquer deslize religioso de Constantino era encarado da mesma perspectiva: como a ação de alguém que não fazia parte do grupo dos fiéis, ainda que fosse simpatizante deles. Uma pessoa assim podia receber conselhos da igreja, mas nunca sua direção ou condenação. Essa situação se encaixava perfeitamente nos propósitos de sua direção ou condenação. Essa situação se encaixava perfeitamente nos propósitos de Constantino e, por isso, ele teve o cuidado de somente se deixar batizar no leito de morte.
Em contrapartida, os que acham que Constantino se converteu simplesmente por oportunismo político estão equivocados por diversas razões. A primeira delas é que essa interpretação é anacrônica demais, alheia aos costumes da época. Até onde sabemos ninguém em toda antiguidade se acertou da questão religiosa com oportunismo político que tem sido característico da idade moderna. Para os antigos, os deuses eram realidades que bem concretas, e mesmo os mais céticos temiam e respeitavam os poderes sobrenaturais. Por isso, pensar que Constantino foi hipócrita ao se declarar cristão, sem crer de fato em Jesus Cristo, é anacronismo. A segunda razão é que na verdade, do ponto de vista puramente político, a conversão de Constantino aconteceu no pior momento possível. Quando Constantino adotou o labarum por emblema, ele estava se preparando para lutar pela cidade de Roma, centro das tradições pagãs, onde seus principais aliados eram os membros da velha aristocracia pagã, que se consideravam oprimidos por Magêncio. A maior força numérica do cristianismo não estava no Ocidente, onde Constantino governava e lutava contra Magêncio, mas no Oriente, para onde sua atenção seria dirigida somente anos mais tarde.
Por último, a opinião oportunista é equivocada, porque o grau de apoio que os cristãos poderiam ter prestado a Constantino era muito duvidoso. A igreja sempre tivera dúvidas sobre se os cristãos poderiam prestar serviço militar e, por isso, o número de cristãos no exército era pequeno. Entre a população civil, a maioria dos cristãos fazia parte da classe baixam que não poderia dar muito apoio financeiro às intenções de Constantino. E, de qualquer forma, depois de quase três séculos de medo do Império, ninguém poderia predizer qual seria a reação dos cristãos diante do fenômeno inesperado de um imperador cristão.
O mais certo parece ser que Constantino cria mesmo no poder de Jesus Cristo. Essa afirmação, entretanto, não implica que o imperador entendesse sua nova fé como os muitos cristãos que tinham entregue sua vida por ela a entendiam. Para Constantino, o Deus dos cristãos era um ser extremamente poderoso, que estava disposto a ajuda-lo sempre e quando ele favorecesse aos seus fiéis. Quando Constantino, portanto, começou a construir igrejas e a proclamar leis favoráveis ao cristianismo, ele não estava tanto buscando o favor dos cristãos, mas o de Deus. Esse Deus lhe tinha dado a vitória em Ponte Mílvia, e muitas outras que se seguiram. Em certo sentido, a fé de Constantino era semelhante à de Licínio, que disse aos seus soldados que o labarum de Constantino possuía certo poder sobrenatural, e que todos deveriam temê-lo. A diferença era que Constantino tinha se apropriado desse poder, servindo a causa dos cristãos. Essa interpretação encontra apoio nas declarações do próprio Constantino que a história conservou, mostrando-nos um homem sincero cuja compreensão do evangelho era reduzida.
Constantino interpretava a fé em Jesus Cristo de uma maneira que não o impedia de adorar a outros deuses. Seu pai já tinha sido devoto do Sol Invicto. Esse era um culto ao Deus Supremo, cujo símbolo era o Sol, mesmo não negando a existência de outros deuses. Parece que Constantino, durante boa parte da sua carreira política, pensou que o Sol Invicto e o Deus dos cristãos eram o mesmo ser, e que os outros deuses também eram reais e relativamente poderosos, apesar de serem divindade subalternas. Por essa razão, Constantino podia consultar o oráculo de Apolo, aceitar o título de sumo sacerdote dos deuses tradicionalmente conferido aos imperadores e participar de cerimônias pagãs de todos os tipos, sem pensar com isso estar traindo ou abandonando o Deus que lhe teria dado a vitória e o poder.
Além disso, Constantino era um político hábil. Ele tinha tanto poder que podia favorecer os cristãos, construir igrejas e até apossar de algumas imagens de deuses para mandá-las para Constantinopla. Mas, se ele quisesse suprimir todo o culto pagão, o imperador imediatamente teria de enfrentar uma oposição irresistível. Os velhos deuses não estavam totalmente esquecidos. A velha aristocracia e as extensas zonas rurais ainda não tinham sido atingidas pela pregação cristã. No exército havia muitos seguidores de Mitra e de outros deuses. A Academia de Atenas e o Museu de Alexandria, os dois grandes centros de estudo da época, dedicavam-se ao ensino da velha sabedoria pagã. Querer suprimir tudo isso através de um mandato imperial era impossível – ainda mais porque o imperador não via nenhuma contradição entre o Sol Invicto e a fé cristã.
A política religiosa e Constantino segui processo lento, mas constante. O mais provável é que isso não foi causado somente por exigência das circunstâncias, mas também por um progresso interno no próprio Constantino, à medida que ele deixava atrás de si a velha religião e compreendia melhor o alcance da nova. No começo, Constantino se limitou a garantir a paz da igreja, e a devolver-lhe as propriedades que haviam sido confiscadas durante a perseguição. Pouco depois, ele começou a apoiar a igreja mais decididamente, como, por exemplo, doando-lhe o palácio de Latrão, em Roma, que pertencia à família de sua esposa, e ordenando que os bispos que se dirigiam para o sínodo de Arles, em 314, utilizassem os meios de transporte imperiais, sem nenhum ônus para a igreja. Ao mesmo tempo, entretanto, ele tentava manter boas relações com os devotos dos cultos antigos e, particularmente, com o Senado romano. O Império oficialmente era pagão, e correspondia a Constantino, como cabeça do Império, o título de sumo sacerdote.  Negar-se a aceitá-lo seria rejeitar de forma súbita todas as antigas tradições do Império – e Constantino não estava disposto a tanto. Até 320, as moedas de Constantino frequentemente apresentavam símbolos e os nomes dos velhos deuses, ainda que muitas já contivessem também o monograma de Cristo.
A campanha de Licínio deu a Constantino uma nova oportunidade de aparecer como defensor do cristianismo. Era precisamente nos territórios que antes tinham pertencido a Licínio que a igreja era numericamente mais forte. Por isso, Constantino pôde nomear vários cristãos para cargos elevados na máquina administrativa do governo, e até pareceu que ele favorecia os cristãos, em detrimento dos pagãos. Ao mesmo tempo, suas desavenças com o Senado romano aumentavam, sendo que este até mesmo empreendeu uma campanha para reavivar a antiga religião, de modo que Constantino se sentiu cada vez mais inclinado a favorecer os cristãos.
Em 324, um imperial ordenou que todos os soldados adorassem o Deus supremo no primeiro dia da semana. Esse era o dia em que os cristãos celebravam a ressurreição do seu Senhor, mas era também o dia dedicado ao culto do Sol Invicto, e, por isso, os pagãos não podiam opor-se ao edito. No ano seguinte, 325, reuniu-se em Niceia a grande assembleia de bispos conhecida como o primeiro concílio ecumênico. Essa assembleia foi convocada por Constantino, e os bispos viajaram às extensas do tesouro imperial.
Já vimos como a fundação de Constantinopla foi um passo adiante nesse processo. Já o fato de criar um “nova Roma” em si era uma tentativa de fugir do poder das velhas famílias pagãs da aristocracia romana. Mas principalmente a política de utilizar os tesouros artísticos dos templos pagãos para a construção de Constantinopla fez com que o velho paganismo, até então rodeado de riquezas e pompa, ficasse cada vez mais pobre. É verdade que durante o governo de Constantino foram construídos e restaurados alguns templos pagãos. Em termos gerais, porém, os santuários pagãos perderam muito do seu esplendor ao mesmo tempo em que eram construídas enormes e suntuosas igrejas cristãs.

Apesar de tudo isso, Constantino continuou se comportando, até quase o fim dos seus dias, como sumo sacerdote do paganismo. Quando ele morreu, seus três filhos, que lhe sucederam não se opuseram ao desejo do Senado de divinizá-lo, e assim surgiu o fato bizarro de que Constantino, que tanto tinha feito de mal ao culto pagão, passou a ser um dos seus deuses.

Fonte: GONZALES, Justo - História Ilustrada do Cristianismo

terça-feira, 28 de junho de 2016

A PLENITUDE DOS TEMPOS

Os primeiros cristãos – entre eles Paulo – não criam que o tempo e o lugar do nascimento de Jesus foram deixados ao acaso. Pelo contrário, eles viam a mão de Deus preparando o advento de Jesus em todos os acontecimentos anteriores ao Natal e em todas as circunstâncias históricas que o rodearam. O mesmo pode ser dito do nascimento da igreja, que é o resultado da obra de Jesus. Deus havia preparado o caminho para que os discípulos, uma vez recebido o poder do Espírito Santo, pudessem ser suas testemunhas “em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria, até os confins da terra” (At 1.8).
Portanto, a igreja nunca foi uma comunidade desprovida de todo contato com o mundo exterior. Os primeiros cristãos eram judeus do século I, e como judeus escutaram e receberam o evangelho. Depois, a nova fé foi se propagando, tanto entre os judeus que viviam fora da Palestina como entre os gentios que viviam no Império Romano e ainda fora dele. Em consequência, a fim de compreender a história da igreja em seus primeiros séculos, devemos primeiro observar o mundo em que a igreja se desenvolveu.

O Judaísmo na Palestina

Palestina, a região onde o cristianismo deu os primeiros passos, foi sempre uma terra sofrida. Em tempos antigos, isso se deveu principalmente a sua posição geográfica, que a colocava na encruzilhada das grandes rotas comerciais que uniam o Egito à Mesopotâmia, e a Arábia à Ásia Menor. Por toda história do Antigo Testamento, essa estreita faixa de terreno se viu cobiçada e invadida, umas vezes pelo Egito, e outras pelos grandes impérios que surgiram na região da Mesopotâmia e Pérsia. No século IV a.C., um novo contendente entrou na arena: Alexandre e suas hostes macedônicas. Ao derrotar os persas, Alexandre se fez dono da Palestina. Ele morreu em 323 a.C., seguindo-se então longos anos de instabilidade política. A dinastia dos Ptolomeus, fundada por um dos generais de Alexandre, apoderou-se do Egito, enquanto os Selêucidas, de semelhante origem, dominaram a Síria. De novo, a Palestina resultou ser a maçã da discórdia nas lutas entre Ptolomeus e Selêucidas.
As conquistas de Alexandre tiveram uma base ideológica. O propósito de Alexandre não era simplesmente conquistar o mundo, mas unir toda a humanidade sob uma mesma civilização de tonalidade marcadamente grega. O resultado disso foi o helenismo, que tendia a combinar elementos puramente gregos com outros tomados das diversas civilizações conquistadas. Ainda que o caráter preciso do helenismo tenha variado de região em região, em termos gerais foi a bacia oriental do Mediterrâneo que lhe deu uma unidade que serviu primeiro à expansão do Império Romano e depois à pregação do evangelho.
Mas o helenismo não era uma bênção para os judeus. Visto que parte da ideologia helenista consistia em equiparar e fundir os deuses de diversos povos, os judeus viam no helenismo uma ameaça à fé no Deus único de Israel. Por isso, a história da Palestina, desde a conquista de Alexandre até a destruição de Jerusalém em 70 d.C., pode se ver como um conflito constante entre as pressões do helenismo, por um lado, e a fidelidade dos judeus a seu Deus e suas tradições, por outra.
O ponto culminante dessa luta foi a rebelião dos Macabeus. Primeiro, o sacerdote Matias e, depois, três de seus filhos, Jônatas, Judas e Simão, rebelaram-se contra o helenismo dos Selêucidas, que pretendiam impor deuses pagãos entre os judeus. O movimento teve algum êxito. Mas já João Hircano, o filho de Simeão Macabeu, começou a se amoldar aos costumes dos povos circunvizinhos e a favorecer as tendências helenistas. Quando alguns dos judeus mais austeros se opuseram a essa política, deflagrou-se a perseguição. Por fim, em 63 a.C., o romano Pompeu conquistou o país e depôs o últimos dos Macabeus, Aristóbulo II.
A política dos romanos era, em geral, tolerante em relação à religião e aos costumes dos povos conquistados. Pouco tempo depois da deposição de Aristóbulo, os romanos devolveram aos descendentes dos Macabeus certa medida de autoridade, dando-lhes os títulos de sumo sacerdote e etnarca. Herodes nomeado rei da Judéia pelos romanos em 40 a.C., foi o último governante com certa ascendência macabeia, pois sua esposa era dessa linhagem.
Mas até a própria tolerância dos romanos não podia compreender a obstinação dos judeus, que insistiam em render culto somente a seu Deus e se rebelavam ante a menor ameaça contra a sua fé. Herodes fez todo o possível para introduzir o helenismo no país. Com esse propósito, fez construir templos em honra a Roma e a Augusto em Samaria e Cesareia. Porém, quando se atreveu a colocar uma águia de ouro na entrada do Templo, os judeus se sublevaram e Herodes teve que recorrer à violência. Seus sucessores seguiram a mesma política helenizante, fazendo construir novas cidades de estilo helenista e trazendo gentios para viverem nelas.
Por essa razão, as rebeliões sucederam quase initerruptamente. Jesus era menino quando os judeus se repelaram contra o etnarca Arquelau, que teve que recorrer às tropas romanas. Essas tropas, sob o comando do general Varo, destruíram a cidade Séforis, capital da Galiléia e vizinha de Nazaré, e crucificaram ali mil judeus. É a essa rebelião que se refere Gamaliel ao diz que, “nos dias do recenseamento, surgiu Judas, o Galileu, e desencaminhou muitos que o seguiram” (At 5.37). O partido dos Zelotes, que se opuseram tenazmente ao regime romano, continuou existindo depois das atrocidades de Varo, e cumpriu papel importante na grande rebelião que irrompeu em 66 d.C. Essa rebelião foi, talvez, a mais violenta de todas, e conduziu em suas consequências, à destruição de Jerusalém em 70 d.C., quando o general – e depois imperador – Tito conquistou a cidade e derrubou o Templo.
Em meio a tais lutas e tentações, não é de se estranhar que o judaísmo se tenha tornado cada vez mais legalista. Era necessário que o povo tivesse diretrizes claras acerca de qual deveria ser sua conduta em diversas circunstâncias. Os preceitos detalhados dos fariseus não tinham o propósito de fomentar religião puramente externa – ainda que às vezes tenham tido esse resultado –, mas, antes, procuravam aplicar a Lei às circunstâncias que o povo vivia.
Os fariseus eram o partido do povo, que não desfrutava das vantagens materiais acarretadas pelo regime romano e helenista. Para eles, o importante era assegurar-se de cumprir a Lei, mesmo nos tempos difíceis que estavam vivendo. Ademais, os fariseus criam em algumas doutrinas que não tinham apoio nas mais antigas tradições dos judeus, como a ressurreição e a existência de anjos.
Os saduceus, por sua parte, eram o partido da aristocracia, cujos interesses os levavam a colaborar com o regime romano. Visto que o sumo sacerdote pertencia geralmente a essa classe social, o culto do Templo ocupava para os saduceus a posição central que a Lei tinha para os fariseus. Além disso, aristocratas e conservadores como eram, os saduceus rejeitavam as doutrinas da ressurreição e a da existência de anjos, que, segundo eles, eram meras inovações.
Portanto, devemos cuidar de não exagerar a oposição de Jesus e dos primeiros cristãos ao partido dos fariseus. De fato, quase todos eles estavam mais perto dos fariseus que dos saduceus. A razão pela qual Jesus os critica não é então por terem sido maus judeus, mas que, em seu afã de cumprir a Lei ao pé da letra, esqueciam-se às vezes dos seres humanos a quem a Lei fora dada.
Além desses partidos, que ocupavam o centro da cena religiosa, havia outras seitas e outros bandos no judaísmo do século I. Já mencionamos os zelotes. Os essênios, a quem muitos autores atribuem os famosos “rolos do mar Morto”, eram um grupo com ideias puristas, que se apartava de todo contato com o mundo dos gentios, a fim de manter sua pureza ritual. Segundo o historiador Josefo, esses essênios sustentavam, além das doutrinas tradicionais do judaísmo, certas doutrinas secretas que lhes estavam vedadas revelar a quem não fosse membro da seita.
Por outra parte, toda essa diversidade de tendências, partidos e seitas não há de ofuscar os pontos fundamentais que todos os judeus sustentavam em comum: o monoteísmo ético e a esperança escatológica.
O monoteísmo ético sustentava que há um só Deus e que este Deus requer, além do culto apropriado, a justiça entre os seres humanos. Os diversos partidos podiam estar em desacordo com respeito ao que essa justiça queria dizer em termos concretos, mas todos concordavam quanto à necessidade de honrar ao Deus único com a vida toda.
A esperança escatológica era o outro ponto comum da fé de Israel. Todos, dos saduceus aos zelotes, guardavam a esperança messiânica e criam firmemente que chegaria o dia de Deus interferir na história para restaurar Israel e cumprir suas promessas de um Reino de paz e justiça. Alguns criam que seu dever estava em acelerar a chegada desse dia recorrendo às armas. Outros diziam que tais coisas deviam ser deixadas exclusivamente nas mãos de Deus. Mas todos concordavam em sua visão dirigida em direção ao futuro, quando se cumpririam as promessas de Deus.
De todos esses grupos, o mais apto para sobreviver depois da destruição do Templo era o dos fariseus. Efetivamente, essa seita tinha suas raízes na época do exílio, quando os judeus não podiam chegar ao Templo para adorar, e, portanto, sua fé se centralizava na Lei. Durante os últimos séculos antes do advento de Jesus, o número de judeus que viviam em terras longínquas aumentava de forma constante. Tais pessoas, que não podiam visitar o Templo senão em raras ocasiões, viam-se obrigadas a centralizar a sua fé na Lei e não no Templo. Em 70 d.C., a destruição de Jerusalém deu o golpe de misericórdia no partido dos saduceus. Portanto, o judaísmo que o cristianismo conheceu através de quase toda a sua história vem da tradição farisaica, assim como o judaísmo que existe em nossos dias.

 O Judaísmo da Dispersão

Como já assinalamos, houve um número cada vez maior de judeus que viviam fora da Palestina durante os séculos que precederam o advento de Jesus. Alguns desses judeus eram descendentes dos que haviam ido ao exílio na Babilônia; nessa cidade, portanto, como em toda a região da Mesopotâmia e Pérsia, havia fortes contingentes judeus. No século I as colônias judaicas em Roma e em Alexandria eram bem numerosas. Em quase todas as cidades do Mediterrâneo oriental havia pelo menos uma sinagoga. No Egito, chegou-se até a construir um templo por volta do século VII a.C. na cidade de Elefantina, e houve-se outro no Delta do Nilo no século II a.C. Mas em geral esse judeus, chamados de “da Dispersão” ou da “Diáspora”, não construíram templos nos quais podiam oferecer sacrifícios, mas antes sinagogas nas quais estudavam as Escrituras.
O judaísmo da Diáspora é de suma importância para a história da igreja cristã, pois foi através dele, segundo veremos no próximo capítulo, que a nova fé se estendeu mais rapidamente pelo Império Romano. Além disso, esse judaísmo proporcionou à igreja a propaganda religiosa. Esse judaísmo se distinguia de seu congênere na Palestina, principalmente por duas características: seu uso do idioma grego e seu contato inevitavelmente maior com a cultura helenista.
Na Palestina do século I e em toda a região do oriente desse país, havia muitos judeus que já não usavam o antigo idioma hebreu, mas o aramaico. Os judeus que se achavam dispersos por todo o restante do Império Romano falavam o grego. Depois das conquistas de Alexandre, o grego veio a ser a língua franca da bacia oriental do Mediterrâneo. Judeus, egípcios, cipriotas e até os romanos utilizavam o grego para comunicar-se entre si. Em algumas regiões – especialmente no Egito –, os judeus perderam o uso da língua hebraica, e foi necessário traduzir suas Escrituras ao grego.
Essa versão grega do Antigo Testamento recebeu o nome de “Septuaginta”, que se abrevia frequentemente mediante o número romano LXX. Esse nome – e número – provém de uma antiga lenda segundo a qual Ptolomeu II Filadelfo, rei do Egito, ordenou a 72 anciãos hebreus que traduzissem a Bíblia independentemente, e todos eles produziram trabalhos idênticos entre si. Ao que parece, o propósito dessa lenda era garantir a autoridade dessa versão, que foi, de fato, produzida ao longo de vários séculos, por tradutores com distintos critérios, de modo que algumas proporções excessivamente literais, enquanto outras tomam liberdades indevidas com o texto.
Em todo o caso, a importância da Septuaginta foi enorme para a igreja cristã primitiva. Essa é a Bíblia que a maioria dos autores do Novo Testamento cita, e exerceu influência indubitável sobre a formação do vocabulário cristão dos primeiros séculos. Ademais, quando aqueles primeiros crentes se esparramaram por todo o Império com a mensagem do evangelho, eles encontraram na Septuaginta instrumento útil para sua propaganda. De fato, o uso que os cristãos fizeram da Septuaginta foi tal e tão efetivos que os judeus se viram obrigados a produzir novas versões, como a de Áquila, e a deixar os cristãos na posse da Septuaginta.
A outra marca distinta do judaísmo da Dispersão foi o seu inevitável contato com a cultura helenista. Em certo sentido, poderia se dizer que a Septuaginta é também o resultado dessa situação. Em todo o caso, fica claro que os judeus da Dispersão não podiam se esquivar do contato com os gentios, como podiam fazer em certa medida seus correligionários da Palestina. Os judeus da Dispersão viam-se obrigados, em consequência, a defender sua fé a cada passo diante daquelas pessoas da cultura helenista, para quem a fé de Israel era ridícula, antiquada ou ininteligível.
Diante dessa situação, e especialmente na cidade de Alexandria, surgiu entre os judeus um movimento que tratava de mostrar a compatibilidade entre o melhor da cultura helenista e a região hebraica. Já no século III a.C., Demétrio narrou a história dos reis de Judá seguindo os padrões da historiografia pagã. Mas foi na pessoa de Filo de Alexandria, contemporâneo de Jesus, que esse movimento alcançou o ápice.
Visto que os argumentos de Filo – ou outros parecidos – foram utilizados depois por alguns cristãos na própria cidade de Alexandria, vale a pena resumi-los aqui. O que Filo intenta fazer é mostrar a compatibilidade entre a filosofia platônica e as Escrituras hebraicas. Segundo ele, já que os filósofos eram pessoas cultas, e as Escrituras hebraicas são anteriores a eles, é de supor que qualquer concordância entre ambos se deve a que os gregos copiaram dos judeus, e não vice-versa. Então, Filo procede a mostrar essa concordância interpretando o Antigo Testamento como uma série de alegorias que apontavam em direção às mesmas verdades eternas a que os filósofos se referem de maneira mais literal.
O Deus de Filo é absolutamente transcendente e imutável, no estilo de “Uno inefável” dos platônicos. Portanto, para se relacionar com este mundo de realidades transitórias e imutáveis, esse Deus faz uso de um ser intermediário, a quem Filo dá o nome de Logos (isto é, Verbo ou Razão). Esse Logos, além de ser um intermediário entre Deus e a criação, é a razão que existe em todo o Universo, e da qual a mente humana participa. Em outras palavras, é esse Logos que faz o Universo ser compreendido pela mente humana. Alguns pensadores cristãos adotaram essas ideias propostas por Filo, com todas as suas vantagens e seus perigos.
Assim, por sua dispersão pelo mundo romano, por sua tradução da Bíblia e ainda por seus intentos de dialogar com a cultura helenista, o judaísmo havia preparado o caminho para o advento e a disseminação da fé cristã.

O Mundo Greco-Romano

Entretanto, nessa disseminação, a nova fé teve de abrir caminho através de situações políticas e culturais que às vezes lhe facilitaram a passagem, e outras lhe serviram de obstáculo. A fim de compreender a vida cristã nesses primeiros séculos, devemos nos deter e expor essas circunstâncias políticas e culturais, ainda que em breve linhas.
O Império Romano havia dado à bacia do Mediterrâneo uma unidade política nunca antes vista. Ainda que em cada região alguns velhos costumes e leis se mantivessem, a política do Império foi fomentar a maior uniformidade possível sem fazer excessiva violência aos costumes de cada região. Essa havia sido antes também a política de Alexandre. Em ambos os casos o êxito foi notável, pois pouco se foi criando uma base comum que perdura até nossos dias. Essa base comum, tanto política como culturalmente, foi de enorme importância para o cristianismo do primeiro século.
A unidade da bacia do Mediterrâneo permitiu aos primeiros cristãos viajar de um lugar a outro sem temor de se verem envoltos em guerras ou assaltos. De fato, ao ler acerca das viagens de Paulo, vemos que o grande perigo da navegação nessa época era o mau tempo. Uns séculos antes, os piratas que infestavam o Mediterrâneo eram muito mais terríveis do que qualquer tempestade. Os caminhos romanos, que uniam até as mais distantes províncias, alguns dos quais ainda existem, não foram alheios aos pés dos cristãos que iam de um lugar ao outro, levando a mensagem da redenção em Jesus Cristo.
Visto que o comércio florescia, os povos iam de um lugar para o outro, e assim o cristianismo chegou frequentemente a alguma nova região, não levado por missionários ou pregadores itinerantes, mas por mercadores, escravos e outras pessoas que se viam obrigadas a viajar por diversas razões. Nesse sentido, as condições políticas da época foram favoráveis à disseminação da nova fé.
Mas também houve outros aspectos dessa situação que serviram de desafio a ameaça aos primeiros cristãos. Já que o Império intentava alcançar a maior uniformidade possível entre seus súditos de diversas origens, parte da política imperial consistia em fomentar a uniformidade religiosa. Isto se fazia mediante o sincretismo e o culto ao imperador.
O sincretismo, que consiste na mistura indiscriminada de religiões, foi característica da bacia do Mediterrâneo a partir do século III a.C. Dentro de certos limites, Roma o incentivou, pois o Império tinha interesse em que seus diversos súditos pensassem que, embora seus deuses tivessem diferentes nomes e atributos, no final de contas eram todos os mesmos deuses; muitos outros provenientes das diversas regiões foram sendo acrescentados ao panteão romano. (“Panteão” quer dizer precisamente “templo de todos os deuses”.) Pelos mesmos caminhos pelos quais transitaram os mercadores e missionários cristãos, transitavam também pessoas das mais variadas religiões, e todas essas religiões se entremesclavam e se fundiam nas praças e nos foros das cidades. O sincretismo era a forma religiosa da época.
Em tal ambiente, tanto judeus como cristãos pareciam ser pessoas intransigentes, que insistiam em seu Deus único e diferente de todos os demais deuses. Por essa razão, muitos viam no judaísmo e no cristianismo um cisto que devia ser extirpado da sociedade romana. Muitas vezes essas perseguições tinham características políticas. O culto ao imperador era um dos meios que Roma utilizava para fomentar a unidade e a lealdade de seu império. Negar-se a render esse culto era visto como sinal de traição ou, pelo menos, de deslealdade. Logo, não são poucos os casos que fica patente que, ao mesmo tempo em que um mártir morria por sua fé, quem o condenava o fazia levado por sentimentos de lealdade política.
Por outro lado, o sincretismo da época também se manifestava no que os historiadores de hoje chamam de “religiões de mistério”, ou simplesmente “mistérios”. Essas religiões não centralizavam sua fé nos velhos deuses do Olímpo – Zeus, Posídon, Afrodite etc. –, mas em outros deuses de caráter pessoal. Nos séculos anteriores, antes que se espalhasse o espírito sincretista e cosmopolita, cada indivíduo era devoto aos deuses do país em que havia nascido. Mas agora, em meio à confusão criada pelas conquistas de Alexandre e de Roma, cada pessoa tinha de decidir a que deuses prestariam sua devoção. Cada um desses deuses dos “mistérios” tinha seus próprios devotos: todos aqueles que haviam sido iniciados.
Em geral, cada uma dessas religiões baseava-se em um mito acerca das origens do mundo, ou da história do deus em questão. Do Egito provinha o mito de Ísis e Osíris, segundo o qual o deus Seth havia matado e esquartejado Osíris, e depois havia espalhado seus membros por todo o Egito. Ísis, a esposa de Osíris, os havia recolhido e dado nova vida a Osíris. Mas agora os órgãos genitais de Osíris haviam caído no Nilo, e por essa razão é que o Nilo é a fonte de fertilidade para todo o Egito. Também por essa razão, alguns dos devotos mais fervorosos desse culto se mutilavam a si mesmos, cortando-se os testículos e oferecendo-os em sacrifício.
Entre os soldados, era muito popular o culto  Mitra, deus de origem persa, cujos mitos incluíam uma série de combates contra o Sol e contra um touro de caráter mitológico. No Grécia, existiam desde os tempos imemoriais os mistérios de Elêusis, perto de Atenas. Os mistérios de Átis e Cibele incluíam ritual de iniciação chamado “taurobóleo”, no qual se matava um touro e se banhava ao neófito com seu sangue. Dado o caráter sincretista de todos esses cultos, logo uns se misturavam com outros, até o ponto de hoje se tornar difícil distinguir as características ou as práticas de um deles em particular.
Além disso, esses deuses não eram zelosos entre si, como o Deus dos judeus e dos cristãos; portanto, houve quem se dedicasse a colecionar mistérios, fazendo-se iniciar nesses cultos, um após o outro. Todas essas tendências sincretistas – em que os velhos deuses se entrelaçavam com as religiões de mistério e com o culto ao imperador – apresentavam forte desafio ao cristianismo nascente. Já que os cristãos se negavam a participar de tudo isso, frequentemente eram acusados de incredulidade e ateísmo.
Diante de tais acusações, os cristãos podiam recorrer a certos aspectos da cultura da época que pareciam prestar-lhes apoio. Mas já podemos indicar que existiram duas tradições filosóficas em que os cristãos encontraram robusto arsenal para a defesa de sua fé. Uma delas foi a tradição platônica; a outra, o estoicismo.
O mestre de Platão, Sócrates, havia sido condenado a morrer bebendo cicuta porque ele era considerado incrédulo e corruptor da juventude ateniense. Platão havia escrito vários diálogos em sua defesa, e, já no século I de nossa era, Sócrates era tido como um dos homens mais sábios e mias justos da antiguidade. Ora, Sócrates, Platão e toda a tradição de que ambos eram parte tinham criticado os deuses pagãos, dizendo que eram criação humana, e que segundo os mitos clássicos eram mais perversos do que os seres humanos. Acima de tudo, Platão falava de um supremo, imutável, perfeito, que era a suprema bondade e beleza. Além disso, tanto Sócrates como Platão criam na imortalidade da alma, e, portanto, na vida depois da morte. Platão afirmava que além deste mundo sensível e passageiro havia outro de realidades invisíveis e permanentes. Tudo isso foi de grande valor e atratividade para aqueles primeiros cristãos que se viam perseguidos e acusados de serem ignorantes e ingênuos. Por essas razões, a filosofia platônica exerceu um influxo sobre o pensamento cristão que perdura até hoje.
Algo semelhante sucedeu com o estoicismo. Essa escola filosófica – algo superior ao platonismo – ensinava doutrinas de alto caráter moral. Segundo os estoicos, há uma lei natural impressa em todo o universo e na razão humana, e essa lei nos diz como devemos nos comportar. Se alguns não a veem e não a seguem, isto se deve ao fato de que são néscios, pois quem é verdadeiramente sábio conhece essa lei e lhe obedece. Ademais, já que nossas paixões lutam contra nossa razão, e tratam de dominar nossa vida, a meta do sábio é fazer que sua razão domine toda paixão, até o ponto de não senti-la. Esse estado de não sentir paixão é a “apatia”, e nisto consiste a perfeição moral segundo os estoicos.
Também nesse caso, podemos imaginar o atrativo dessa doutrina para os cristãos, que se viam obrigados a enfrentar repetidamente os costumes corruptos de sua época, e a criticá-los. Já que os estoicos haviam feito o mesmo, em suas ideias e escritos, os cristãos encontravam apoio para sua defesa e propaganda. Igualmente ao platonismo, isto acarretava o perigo de que se chegasse a confundir a fé cristã com essas doutrinas filosóficas, e que assim se perdesse algo do caráter único do evangelho. Não faltaram aqueles que, em um aspecto ou outro, sucumbissem ante essa tentação. Mas isso não há de ocultar-nos o grande valor que essas doutrinas tiveram na primeira expansão do cristianismo.
Segundo o apóstolo Paulo, o cristianismo penetrou o mundo quando veio “a plenitude dos tempos”. Talvez alguém entendesse isto no sentido de que Deus facilitaria o caminho àqueles primeiros cristãos. Não há dúvidas de que muito do que estava acontecendo no século I facilitou o avanço da nova fé, mas também é certo que esses mesmos acontecimentos colocavam diante da igreja desafios difíceis que exigiam enorme valor e audácia.

A “plenitude dos tempos” não quer dizer que o mundo estivesse pronto para se tornar cristão, como fruta madura pronta para cair da árvore, mas quer dizer que, nos desígnios inescrutáveis de Deus, havia chegado o momento de enviar o seu Filho ao mundo para sofrer morte de cruz, e de espalhar os discípulos por esse mesmo mundo, a fim de que eles também dessem um testemunho custoso de sua fé no Crucificado.