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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O FILHO PRÓDIGO - UMA EXEGESE SOBRE A HISTÓRIA DE UM FILHO QUE DESEJOU A MORTE DE SEU PAI

Este artigo procura fornecer por meio do instrumental exegético e da mediação do conceito de fronteira uma análise do contexto da narrativa parabólica que se encontra no evangelho de Lucas 15. 11-32. Tal parábola evidencia um conflito entre dois grupos em busca da identidade dentro de uma comunidade cristã em Antioquia. 

Uma rápida visão acerca da estrutura de Lc 15. 11-32 O trecho de Lc 15. 11-32 apresenta uma parábola dupla, e cada metade tem a sua estrutura própria. A primeira metade encontra-se nos versículos 11-24 e a segunda nos versículos 25-32. As duas partes são semelhantes, mas diferentes. Bailey organiza essa parábola dupla em estrofes que combinam uma com a outra usando paralelismo invertido ou em degrau e outras correspondências semânticas. Dessa forma,
a estrutura da primeira metade é a seguinte: 

A - Havia um homem que tinha dois filhos 

1 Um filho é perdido (v.12) 

2 Bens gastos com uma vida cara (v.13) 

3 Tudo perdido (v.14) 

4 O grande pecado; cuidar de porcos para os gentios (v.15) 

5 Total rejeição (v.16) 

6 Mudança de mente (v.17) 

6’ Arrependimento inicial (v.18-19) 

5’ Total aceitação (v.20) 

4’ O grande arrependimento (v.21) 


3’ Tudo ganho; restaurado a filiação(v.22) 


2’ Bens usados na alegre celebração (v.23) 

1’ Um filho é achado (v.24). 

A segunda metade é uma repetição da primeira. O princípio da inversão é usado outra vez. Vejamos sua estrutura literária. 

B - Ora, o filho mais velho estava nos campos 

1 Ele vem (v.25, 26) 

2 Teu irmão- ileso- uma festa (v.27) 

3 Um pai vem para reconciliar (v.28) 

4 Queixa I (como me tratas) (v.29) 

4’ Queixa II (como tratas a ele) (v.30)

3’ Um pai tenta reconciliar (v.31) 

2’ Teu irmão- ileso- uma festa (v.32) 

1’ ............................ (faltando) 


As ligações entre as estrofes são claras. No centro apoteótico as duas queixas combinam linha a linha em paralelismo em degrau. Na estrofe 3 o pai vem para reconciliar-se, enquanto que na 3’ ouvimos um discurso de reconciliação. A estrofe 2 é um relatório da festa dado por um rapaz, e em 2’ o pai defende o fato de ter iniciado esses mesmos eventos. O término está faltando: não há estrofe 1’, algo está inacabado.

Não à exclusão 

A porção bíblica de Lc 15.11-32 é uma narrativa parabólica. Tal narrativa trata de um acontecimento de caráter único e não costumeiro o qual é narrado pormenorizadamente. Constata-se uma tendência de apresentar os personagens em determinada relação social (estrutura: superior, inferior; ou direito, subalterno), por exemplo, a figura paterna. Com freqüência são apresentados dois grupos, um dos quais é preciso escolher. O seu fundo literário geral é o gênero das fábulas antigas, na medida que se referem as seres humanos. Muitas dessas fábulas começam, como a parábola de Lc 15.11-32, com "havia um homem". As narrativas parabólicas raramente são autônomas com relação ao contexto e tem amiúde função retórica, argumentativa. Para a apreciação sistemática das parábolas, isso acarreta a necessidade de se prevenir contra a tendência de isolá-las de seu contexto. Tal isolamento teria por conseqüência a superestimação do peso teológico da parábola. Trata-se de problemas fundamentais como a riqueza, a compaixão com os irmãos e com o próximo em geral e a justificação da abertura para pecadores e pagãos. E sempre está em jogo a unidade da comunidade. Não se justifica a oposição daqueles que já estão dentro há mais tempo contra a admissão ou equiparação de novatos menos privilegiados.

Situando o evangelho 

Não há consenso acerca da autoria, do local da composição e da datação do evangelho de Lucas.Diante da impossibilidade de identificação do autor, o mais sensato seria admitir como Kummel que somente uma coisa se pode afirmar com certeza a respeito da sua autoria: trata-se de um cristão proveniente da gentilidade.m relação ao local de autoria, situo este evangelho na cidade de Antioquia, visto que o Livro de Atos guarda uma forte memória da igreja localizada nesta cidade (Atos 11.19-26; 13.1-3) e também por possuir todos os aspectos de uma cidade fronteiriça. Assim como não há consenso quanto a localização do evangelho de Lucas, também não há quanto a sua datação. Mesters o situa em torno do ano de 85.Storniolo entre 80 e 90.No entanto, uma posição mais cautelosa nos leva a datá-lo entre os anos 70 e 90.


Entre dois mundos 

Herdeiro do pensamento paulino anti-romano, o autor de Lucas inverte a cosmovisão de sua época de que Roma seria o centro do mundo habitado e que a Judéia seria apenas um local desprezível nos confins da terra. Para ele o centro ou a "polis" passara a ser a Judéia em detrimento de Roma (asty). Entre estes dois extremos situava-se a cidade de Antioquia (khora), lugar em que provavelmente foi composta a obra de Lucas-Atos e uma região onde as comunidades eram diásporas e as fronteiras na realidade não imobilizavam, mas, curiosamente eram constantemente atravessadas. A obra de Lucas reflete as características de fronteira fluída desta região. Assim, para o autor de Lucas Jerusalém seria a polis, Antioquia a khora e as regiões do mediterrâneo incluindo Roma a asty
Em Antioquia se deu a interseção entre o cristianismo judeu e o cristianismo do mediterrâneo. Este encontro não envolveu apenas pessoas como também raças, continentes e culturas. Por ser uma comunidade fora do controle de Jerusalém, a comunidade de Antioquia representava um cristianismo marginal (não oficial) e, por isso, mais aberto ao mundo do que o cristianismo praticado pela comunidade judaico- cristã. Era uma comunidade mista na qual conviviam no mesmo espaço gentios e judeus, ricos e pobres, homens e mulheres. Por conta disso, havia tensões internas e externas que sacudiam o seio desta comunidade. Os conflitos produzidos no interior da comunidade de Antioquia eram o reflexo da elaboração de fronteirasentre grupos, principalmente entre o cristianismo judaico e o greco-romano. O evangelho de Lucas é o resultado de um processo sincrético que procura resolver estas constantes tensões. 

O conflito na comunidade lucana parece gravitar em torno da aceitação na comunidade de um grupo de pessoas oriundas do mundo gentílico que não cumpriam as exigências das leis de pureza judaicas. Estas leis tinham grande importância porquanto eram símbolos da identidade de grupo dos judeus.10Após a guerra Judaica e a destruição do templo, o conceito de pureza, que era espacial-geográfico, passa a ser ritual. O conceito de sagrado, que era ligado à terra e ao espaço, passa a se ligar, a práticas rituais ligadas a pureza. Assim, a violência e a exclusão eram dirigidas a todos que não cumpriam os princípios de pureza.11 

Em contraste a postura judaica exclusivista, o autor de Lucas nos apresenta parábolas que denunciam tal arbitrariedade e propõe uma inversão da posição dos judeus em relação aos gentios. O cumprimento cego das exigências da lei pelos judeus não alegraria a Deus. A celebração da vinda do reino tomou lugar na participação da mesa de Jesus com os rejeitados, por isso, o zelo excessivo no cumprimento da lei judaica tornou-se uma barreira separando os gentios rejeitados e os judeus contribuindo para ausência deste último grupo na mesa.ejamos, então, o que o texto nos fala. 

Pai e filhos (parte I)  15.11-24

A parábola em estudo inicia no v.11 com um "um certo homem" que era pai de dois filhos. Ao introduzir os dois filhos no início do relato, o autor prepara o leitor para o papel que ambos desempenharão na trama. 

No verso 12 somos confrontados com o filho mais jovem pedindo sua parte da herança. As leis a respeito de tais transações não são muito claras, porém é bastante claro que a pretensão do filho mais novo era desrespeitosa e irregular. De acordo com a lei mosaica que pode ter sido designada para proteger o direito do irmão mais velho contra o favorecimento do filho mais novo, o irmão mais velho tinha direito ao dobro da herança (Dt 21.17). Segundo J. Jeremias havia duas formas de transmissão de posse de pai para filho: por testamento ou por doação entre vivos. Neste último o interessado recebia imediatamente o capital e somente depois da morte do pai recebia o gozo do uso. O filho recebia o direito de posse, seu pai não podia vender os campos, e não o direito de dispor, se o filho vendesse a propriedade, o comprador tomaria posse somente depois da morte do pai. Portanto, o gozo do uso ficava com o pai até a sua morte.

Apesar dessas provisões Sirach, um sábio judeu (190 a. C.) previne contra a prática repartir a herança enquanto o pai ainda está vivo ligando isto a questão da honra do pai.
 Isto nos levanta a suspeita de que tal prática seria comum. No entanto Bailey em sua analise cultural do Oriente Médio demonstra que tal prática era algo irregular ao extremo. Ele admite que o texto de Sirach não demonstra que o procedimento era comum. Antes, reflete a postura predominante da comunidade. Além disso, o texto de Sirach apresenta o pai distribuindo uma herança e não um filho pedindo por ela. De fato, o filho mais novo desejava a morte do pai, porquanto a noção de passar uma herança enquanto alguém estava em boa saúde era algo impensável.[O filho mais novo estava quebrando os laços familiares e tratando o seu pai como se estivera morto. Assim sendo, a resposta do pai no v.12b é muito apropriada, "e ele lhes dividiu a vida 


Dividir a herança enquanto o pai estivesse vivo era um grande insulto e o irmão mais velho deveria recusar a petição de seu irmão e intervir como um conciliador. Por sua vez, o pai cede ao filho a posse e a disposição dos bens demonstrando um ato de amor sem precedente que dá liberdade até para rejeitar a pessoa que ama enquanto o filho mais velho aceita silenciosamente sua parte negando-se a desempenhar o seu papel de conciliador deixando evidente que havia problemas no seu relacionamento tanto com seu pai quanto com seu irmão. Ambos os filhos fracassaram na tentativa de viverem juntos, em unidade com seu pai.

A ação do filho mais jovem relata seu distanciamento e alienação progressiva de sua família, má administração de sua herança e decadência em pobreza e privação. O v.13 nos informa primeiramente que ele ajuntou seus bens e partiu para uma terra distante
. A fim de entendermos este termo é necessário que haja uma compreensão do que viria a ser uma polis grega. Para Chevitarese, a polis era um espaço territorial urbano marcado pela ação e tensão sociopolítica. Apresentava posições marcadamente conservadoras baseadas em relações fundadas nos valores de honra e vergonha. A polis também possuía uma Khora que era sua zona rural a qual fazia fronteira com a asty ou terras marginais. Esta área por causa da imprecisão fronteiriça era um lugar de intensas disputas e um lugar onde as fronteiras eram fluídas.

Ao contrário da polis, nesta zona fronteiriça as posições não eram conservadoras, porquanto refletiam a interação vivida com as outras terras marginais. Nesta zona fronteiriça havia espaço para a ação no manejo da cultura;
Para o autor de Lucas esta "terra distante" representava uma terra gentílica, a própria Antioquia, por ser uma cidade fronteiriça. Além disso, representava a alienação do filho mais novo de sua família. J. Jeremias demonstra que não havia nada de errado com a emigração no primeiro século, devido a fome freqüente na palestina e as condições de vida mais favoráveis nas grandes cidades comerciais, muitas pessoas mudaram-se para o exterior.

Em segundo lugar, o v.13 nos informa que ele gasta rapidamente sua herança "vivendo dissolutamente". Ademais, o começo de uma grande fome levou o jovem a enfrentar grave necessidade. 

Finalmente no v.15, sem o apoio da família, ele procura trabalho com um cidadão local. Trabalhar para um gentio era algo proibido para um judeu (At 10.28), um fato exemplificado pela sua baixa consideração pelos coletores de impostos (Lc 15.1). Desesperado, o jovem aceita alimentar os porcos, animal considerado impuro e, por isso, um trabalho degradante para um judeu (Lev 11.7; Dt 14.8; 1 Mac 1.47). Portanto, esse rapaz se viu forçado a romper com a tradicional prática e vida judaica (sábado, etc.).

O v.16 retrata de forma dramática a completa queda e a desesperada necessidade enfrentada pelo filho mais novo, o fato de ninguém lhe dar comida o levou a desejar satisfazer-se com alfarrobas que os porcos comiam. A necessidade de ter o que comer fez com que o filho mais novo perdesse a sua dignidade e recebesse tratamento pior do que os porcos. Essa era a condição de vida de milhões de pessoas no império. Segundo Crossan, no Mediterrâneo oriental, a luta pelo controle do pouco excedente agrário existente era, em geral, mais impiedosa nos limites das grandes cidades. As vítimas eram, de maneira quase inevitável, os camponeses; e o resultado era a condição crônica de escassez e desnutrição, sempre prestes a se transformar em fome e epidemia. Se existia, a abundância só se encontrava entre os ricos e seus clientes nas cidades. 
É provável que neste ponto da parábola, o autor faz uma crítica ao sistema econômico greco-romano que favorecia uma pequena elite em detrimento da grande maioria da população que vivia na miséria. 
Não há consenso quanto ao que realmente são estas alfarrobas, no entanto, Bailey sugere que seja simplesmente um arbusto no qual os porcos podem cavoucar a terra procurando as suas bagas. Elas podem ser comidas pelo seres humanos, mas é amarga e não tem valor nutritivo. O pródigo não conseguiu encher o estômago com elas. 

No v.17 através de um solilóquio, um dispositivo narrativo comum nas parábolas lucanas, podemos ver diretamente o coração do personagem (ex. Lc 12.17-19). Assim, o rapaz repensa a sua situação, "cai em si" e percebe que é melhor voltar para casa. Porquanto, na casa de seu pai até mesmo os trabalhadores tinham abundância de comida. Para Jeremias a expressão "e caindo em tanto em hebraico como em aramaico aponta para o significado de "converter-se". Aqui a fome do rapaz estimula o arrependimento. Não existe uma dicotomia entre fome e arrependimento. No entanto, existe uma tensão no entendimento representado nas três parábolas de Lucas 15. Nas duas primeiras parábolas, a ovelha e a moeda são simplesmente encontradas, elas não desempenham um papel ativo. Porém, na parábola ora estudada o filho realiza o movimento inicial e é incondicionalmente recebido pelo seu pai. 

O monólogo prossegue no v.18, o rapaz resolve despertar da sua letargia e desespero, isto fica evidente pela expressão "levantar-me-ei e irei". A frase "pequei contra o céu e contra ti" (revela a percepção de que o erro cometido não era apenas contra o seu pai pois ele havia violado o quinto mandamento (Dt 5.16).
O rapaz finaliza seu pensamento no v.19, aqui dominado pela vergonha ele não se vê no direito de ser restaurado como filho e sim como "um dos trabalhadores assalariados"  de seu pai. Sendo assim, no v.20, ele decide levantar e voltar para seu pai. Aqui o ponto de vista muda do filho para o pai. 

Ao avistar seu filho, "porém ainda distante", o pai não se contenta em esperar passivamente, ele corre para encontrá-lo e o abraça calorosamente. Observe que o pai vai ao encontro do filho enquanto estava ainda distante. Na antiga Palestina, o fato de um homem correr era visto como inconveniente ou como uma perda de dignidade. O pai estava preparado a violar tradições para reconciliar e dar boas vindas ao seu filho que se encontrava perdido. 

O caráter do pai é definido pelas expressões "teve compaixão""inclinou sobre seu pescoço"  e "beijou repetidamente", assim, seu coração compassivo, uma compaixão que precede a confissão do seu filho. A atitude amorosa do pai ao abraçar e beijar seu filho considerado imundo, e, conseqüentemente morto pelas leis de pureza judaicas, era uma crítica contra a postura judaica de violência e exclusão dirigida aqueles que não se enquadravam nas regras de pureza. O perdão imerecido era o oposto do que era esperado. Em vez de provar a hostilidade, o rapaz entra na aldeia sob o cuidado e proteção do pai. 

A seguir, o pai passa instrução para que seus servos peguem a melhor túnica, um anel e sandálias para seu filho. É um sinal para o resto da aldeia de que o rapaz será tratado como filho novamente (Gen 41.42; 1 Mac 6.14-15). Ele é um homem livre, um convidado honrado, um filho. A demonstração do extremo amor do pai continua (v.23). 
O pedido para matar um novilho cevado representa o clímax de sua hospitalidade. Para Greg Forbes o verbo "regozijemo-nos" que encerra este versículo é de extrema importância, pois: "aponta para uma celebração comunal, um tema que conecta cada uma das três parábolas deste capítulo. O banquete serve como uma oportunidade para reconciliar o rapaz com a aldeia inteira. Além do que, a celebração e a imagem festiva contrasta com as alfarrobas e ajuda a sublinhar as extremidades do perdido-achado, do pecado-arrependimento e da alienação e restauração. Dando o contexto de perdão-salvação, a imagem aqui pode também carregar ecos do banquete messiânico" ( Lc 13.28-29; 14.15-24).
As palavras do pai no v.24 traduz o motivo da festa "porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado". O jovem rapaz estava culturalmente e fronteiriçamente "morto" nekro.je completamente "perdido" avpolwlw.j, portanto, separado da comunhão da sua família e do amor de seu pai. No entanto, esta situação aparentemente irreversível se reverteu. Por isso, a celebração inicia.

Pai e filhos (parte II) 

A celebração serve como estímulo para a segunda parte da parábola. No verso 25, a cena muda para o filho mais velho que está voltando de seu trabalho no campo. Esta imagem evoca o quadro de um filho ainda em casa, porém distante de seu pai. Ao se aproximar ele ouve a celebração, músicas e dança. Ele chama um dos meninos33 e pergunta o que estava acontecendo (v.26). 

A resposta segue no v.27 "teu irmão está presente, e matou teu pai o novilho cevado, porque em boa saúde o recebeu de volta". No v.28 o filho mais velho irado, pelo rápido perdão oferecido ao seu irmão, recusa entrar na casa para participar da celebração. O imperfeito "queria" capta sua persistente recusa em entrar para juntar-se na celebração. Novamente a trama é caracterizada pela distância e separação entre o filho e o pai. Bailey observa que a ira e a recusa de participar da celebração eram insultos profundos contra o pai diante do público. Contudo, o paralelismo continua quando mais uma vez o pai se humilha ao sair de sua casa para se encontrar com seu filho, uma demonstração de amor inesperado. Em vez de censurar seu filho ele suplica para que entre. O imperfeito "continuava a rogar". A recusa persistente do filho vem ao encontro da persistente suplica do pai.
Aqui no verso 29 o filho mais velho começa a dar forma a sua ira. Em todo o tempo o irmão mais novo se dirige a seu pai respeitosamente "Pai", mesmo em seu solilóquio (v. 12, 18, 21). Entretanto, seu irmão mais velho recusa em reconhecer sua relação com o seu pai e com o seu irmão. Ele abre seu discurso com a palavra "veja"em vez de "Pai". Mesmo assim, o irmão mais velho julgava-se um filho modelo e servidor de seu pai. O uso do verbo "sirvo"demonstra que ele não entendia o que significava a relação entre pai e filho. De fato, ambos os filhos acreditavam de forma errônea que o seu pai os aceitariam por agirem como servos. A ironia lucana transparece na continuação do discurso do filho mais velho. 

Pouco depois de envergonhar seu pai em público, ele alega que nunca havia desobedecido uma só das ordens de seu pai. Indignado, no v.30, ele dirige suas criticas a seu irmão referindo-se de forma depreciativa "este teu filho" preocupando-se apenas com a propriedade desperdiçada com as meretrizes. A palavra "meretrizes" metaforicamente pode assumir o significado de "idolatria (Ap 17.5)". Talvez esta palavra foi inserida aqui não simplesmente para denotar "uma mulher que vende seu corpo", mas, faz menção de forma pejorativa a nação gentílica considerada idolatra e impura pelos judeus. Em sua fala final o filho mais velho novamente demonstra a sua decepção por seu pai ter matado um novilho cevado para festejar o retorno de seu irmão, na sua concepção, este ato demonstrara certa preferência do pai pelo seu filho mais novo. Embora o filho mais velho não tenha se dirigido ao pai de forma respeitosa "Pai", a primeira palavra do pai "filho" demonstra todo o seu afeto por ele (v.31). A sentença quiástica sublinha o relacionamento entre eles: "tu sempre comigo estas e tudo o que é meu é teu." Com efeito, o pai relembra ao filho mais velho que por direito tudo lhe pertence porquanto seu irmão mais novo já havia recebido a sua parte na herança. As ações do pai demonstram o seu amor por ambos os filhos. O novilho cevado não foi morto porque o pai tinha alguma preferência pelo filho mais novo, mas porque ele havia retornado com vida (v.32). Neste mesmo verso o pai não está somente justificando a festa, antes está convidando o seu filho mais velho a juntar-se a celebração. Com a frase "esse teu irmão" o pai enquadra o filho mais velho na mesma categoria do mais novo, eles são irmãos, e relembra o relacionamento que o filho mais velho teimava ignorar (v.30). O mais velho não tem o direito de fazer distinção. Se ele quer tê-lo como pai é mister que também aceite a seu irmão. A parábola não diz qual foi a resposta final do irmão mais velho. Ela deixa em aberto. Caberia ao leitor da parábola a tarefa de dar a resposta. 

Conclusão 

Assim sendo, nas entrelinhas de nosso texto podemos vislumbrar lampejos do contexto em que estava inserida uma comunidade cristã fronteiriça. A atitude do pai amoroso, do filho mais novo e do filho mais velho nos remete respectivamente a ação de Deus, da comunidade greco-romana e da comunidade judaica em Antioquia. Ambas as comunidades tinham posições antagônicas acerca da identidade da comunidade cristã. A proposta mais tolerante da comunidade greco-romana entrava em conflito com as leis de pureza dos judeus cristãos, as quais tornavam a comunidade judaica menos flexível a incorporação de gentios. Os judeus cristãos enrijeceram fronteiras geográficas e mentais que os distanciavam da prática da comunhão de mesa com os gentios da comunidade. Eles queriam evitar qualquer processo de assimilação, porquanto correriam o risco de perder a sua própria identidade. Devido ao conflito gerado na comunidade de Antioquia, o autor lucano apresenta um projeto audacioso e inclusivo para ambos os grupos. Sua intenção era romper as fronteiras que geravam violência e exclusão. Tanto o filho que estava geograficamente longe de Deus quanto o que estava perto desobedeceram ao mandamento divino. O perdão do pai, Deus, seria somente concedido por meio do reconhecimento de tal erro e da comunhão de mesa e, dessa forma, ambos seriam aceitos pelo pai no banquete messiânico.

BIBLIOGRAFIA 

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CHEVITARESE, André Leonardo. Fronteiras internas atenienses no período clássico. (Re)definindo conceitos e propondo instrumentais teóricos de análise, in: PHOINIX, Rio de Janeiro, n. 10, 2004. 

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The New Interpreter’s Bible, v. IX-A Commentary in Twelve Volumes – Luke and John. Nashville, Abingdon Press, 1994.

Fonte: Blog Meditando na Palavra

segunda-feira, 17 de julho de 2017

CORAGEM: UMA PALAVRA QUE PERCORREU PELAS VEIAS DE PAULO PARA PROSSEGUIR!

CORAGEM: Deus sempre anima os seus escolhidos
Atos 23:11

No capítulo 21 de Atos, Paulo está de malas prontas para viajar a Jerusalém. Será a última vez que Paulo colocará os pés na cidade de Davi.

Embora um dos propósitos da sua viagem seja levar uma oferta colhida entre os crentes gentios para os crentes judeus, ele sabe que as curvas do futuro lhe reservam cadeias e tribulações.

Paulo não nutre esperanças falsas; sabe que será preso. Não caminha em direção dos holofotes, mas rumo à prisão e à morte. Paulo chega a pedir oração à igreja de Roma para não ser morto pelos rebeldes judeus nessa arriscada viagem à Jerusalém (Rm. 15:30,31).

No capítulo 21.1-6, Paulo zarpou de Mileto, porto nas proximidades de Éfeso, viajou até Cós, pequena ilha ao sul de Mileto; no dia seguinte, partiu para Rodes, ilha maior a sudeste, e, dali seguiu para Pátara, a leste de Rodes (At. 21.1). Prosseguiu viagem de Pátara para Fenícia, numa longa viagem de 650 km (At. 21.2), bordejando a ilha de Chipre e navegando direto para Tiro, onde o navio deveria ser descarregado.

Em Tiro, recebeu uma profecia, alertando-o a não ir à Jerusalém (At. 21.4).

Após uma semana entre os  crentes de Tiro, Paulo se despediu em clima de profunda emoção e cordialidade, prosseguindo sua viagem a Jerusalém (At. 21.5-6).

No capítulo 21.7-16, após Paulo deixar a cidade de Tiro rumo a Cesareia, Paulo chegou a Ptolomeia, onde saudou os irmãos, permanecendo com eles por um dia (At. 21.7)

Enquanto Paulo estava em Cesareia, Ágapo, conhecido profeta, desceu da Judeia e profetizou a prisão de Paulo em Jerusalém, acrescentando que os judeus o entregariam nas mãos dos gentios (At. 21.10-11).

Paulo rejeitou abertamente o pedido dos discípulos e seguiu resoluto para Jerusalém, mesmo sabendo que acabaria sendo preso.

Assim como os cristãos de Tiro, os cristãos de Cesareia imploraram a Paulo que não fosse a Jerusalém. Tanto a equipe que o acompanhava Paulo como os discípulos de Cesareia tentaram demover o apóstolo de ir a Jerusalém, mas este os calou e respondeu com firmeza: Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus (At. 21.13).

Quando Paulo chega em Jerusalém, aconteceram 4 grandes fatores importantes em sua estada:

1)      Paulo teve uma acolhida acalorosa; Paulo foi acolhido pelos irmãos com alegria.
2)      Paulo encontrou-se com Tiago, o líder da igreja, ocasião em que os presbíteros se reuniram para ouvirem o apóstolo.
3)      Paulo relata minuciosamente os testemunhos que o Senhor fizera por seu intermédio.
4)      Tiago estava preocupado com Paulo. Havia boatos que Paulo ensinava os crentes judeus a apostatarem de Moisés, deixando de circuncidar seus filhos e de obedecer a Lei.

Era Festa de Pentecostes, e havia milhares de judeus em Jerusalém de todas as partes do mundo. Os judeus incrédulos vindos da Ásia, ao verem Paulo no templo, movidos pelo preconceito inflexível e pela violência fanática, numa atitude completamente diferente dos líderes da igreja de Jerusalém, alvoraçaram o povo e prenderam Paulo com violência.

Sobre a prisão de Paulo:
      a)      Os judeus foram grandes adversários de Paulo e os grandes opositores do evangelho. Essa é a principal tese de Lucas no Livro de Atos (4.1-5.42; 7.54-60; 8.1-4; 9.23-25; 21.27-36; 23.12-21). Foram os judeus que provocaram tumultos e agora mais uma vez alvoroçam a multidão. Nesse clima de motim, os judeus agarraram e prenderam Paulo.

      b)      Acusação falsa.
Os judeus espalharam boatos sobre Paulo.

      c)       Antes de investigar a veracidade das acusações e antes de oferecer ao acusado chance de defesa, os judeus deliberaram mata-lo.
A multidão gritava para o matar!

      d)      O comandante Cláudio Lísias foi informado do motim.
Os judeus cessaram de espancar Paulo quando o comandante mandou acorrenta-lo, para saber quem era o que o havia feito prisioneiro.

Por essa razão, o comandante mandou recolher Paulo à fortaleza para não ser despedaçado pela multidão que clamava por sua morte.

Ao ser levado para a fortaleza, Paulo pede permissão para falar à multidão amotinada. O comandante pensou que Paulo fosse o egípcio que havia aliciado quatro mil sicários e Paulo responde declarando ser um judeu natural de Tarso, importante província do Império. A multidão silencia, e Paulo dirige-se a seu povo em língua hebraica.

Em sua defesa para com a multidão, Paulo,

        A)     Conta sua história anterior à conversão;
        B)      Conta como foi a sua conversão;
        C)      Fala sobre o projeto de Deus em sua vida após a conversão;
        D)     Diz como lutou com Deus para aceitar o seu ministério.

Os judeus o ouviram até o momento em que ele testemunhou seu chamado para anunciar o evangelho aos gentios. A partir de então, passaram a gritar: Tira tal homem da terra, porque não convém que ele viva (At. 22.22).

O sinédrio é convocado, e Paulo se apresenta aos 71 membros do supremo tribunal dos judeus. O sinédrio era responsável por interpretar a lei judaica às questões de sua nação e levar a julgamento os que a transgridem.

Após o confronto entre Paulo e Ananias, e a acalorada discussão entre os fariseus e saduceus, o clima ficou extremamente tenso. Paulo estava numa espécie de beco sem saída. As esperanças eram mínimas. Nesse momento de angústia, o próprio Senhor Jesus apareceu a Paulo na prisão e lhe disse: ... Coragem! Pois de modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também faças em Roma (At. 23.11).

A mensagem do Senhor a Paulo foi de encorajamento, aprovação e confirmação.

Destacamos 3 importantes pontos:

      1)      O DEUS QUE ACOMPANHA
Naquela noite fatídica, o próprio Deus se colocou ao lado de Paulo. Lucas registra assim: Na noite seguinte, o Senhor, pondo-se ao lado dele... Na hora mais escura, Deus se apresentou junto ao seu arauto. O maior encorajamento que Paulo recebeu para prosseguir foi a presença do próprio Jesus.

      2)      O DEUS QUE O ENCORAJA
Naquele momento de desânimo, Deus disse a Paulo: Coragem!... O encorajamento não vem dos homens, mas de Deus. Não brota da terra, mas do céu. Não emana das circunstâncias, mas da Palavra do Deus vivo.

      3)      O DEUS QUE O COMISSIONA
O destino de Paulo não estava nas mãos dos judeus ou dos romanos, mas estava nas mãos do Deus vivo. Nenhuma força da terra poderia colocar um ponto final no ministério de Paulo. Era vontade de Deus que Paulo fosse a Roma.

As situações nos desanimam, e nos levam a desistir pelo caminho, Paulo, aos olhos carnais teria todo o direito de ficar desanimado, pois:

a)      Teve que descer por um cesto, pela janela de uma muralha;
b)      É expulso em Antioquia;
c)       Em Listra, é perseguido e apedrejado, lançado para fora da cidade e dado como morto;
d)      Na Macedônia, é chicoteado e aprisionado;
e)      Em Tessalônica é obrigado a fugir;
f)       Em Éfeso, incitaram grandes tumultos contra ele;
g)      Sofreu um naufrágio em Mileto;
h)      Em Malta é picado por uma cobra.

Parece que a vida havia amaçado Paulo feito um rolo compressor.

Deus é fiel e não deixa nenhum dos seus perdidos e desamparados.

O simples fato de Deus dizer “Coragem”, foi o combustível necessário para Paulo não desistir da sua caminhada.

Deus sempre tem algo encorajador para os seus filhos. Esse algo está em sua Palavra.

É por meio da Palavra de Deus que os seus servos encontram forças para continuar sua jornada.

Se você estiver atento e não desviar a sua atenção para as circunstâncias, com certeza ouvirá palavras de ânimo e certeza de que não está só.


Bastou apenas uma única palavra para Paulo buscar forças de onde não tinha: CORAGEM!

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O ESCÂNDALO DA GRAÇA

Por que Deus escolheria Jacó, o enganador, em vez do respeitoso Esaú? Porque conferir poderes sobrenaturais de força a um mozartino chamado Sansão? Por que preparar um pastorzinho nanico, Davi, para ser o rei de Israel? Na verdade, em cada uma dessas histórias do Antigo Testamento, os escândalo da graça ressoa sob a superfície até que, finalmente, nas parábolas de Jesus, ela explode em uma dramática sublevação para reformar a perspectiva moral.
A parábola de Jesus sobre os trabalhadores e o pagamento injusto que receberam mostra claramente esse escândalo. Em uma versão judaica contemporânea da história, os trabalhadores contratados à tarde trabalharam tanto que o empregador, impressionado, decide recompensá-los com o salário de um dia. Não foi assim na versão de Jesus, que salienta que o último grupo de trabalhadores esteve negligente sem atividade no mercado, coisa que apenas trabalhadores preguiçosos e incapazes poderiam estar fazendo durante a colheita. Além do mais, os folgados nada fizeram para destacar-se, e os outros trabalhadores ficaram escandalizados com o pagamento que receberam. Que empregador, em seu juízo perfeito, pagaria por uma hora de trabalho a mesma quantia que pagou por doze?

A história de Jesus não faz sentido do ponto de vista econômico, e essa foi a sua intenção. Ele estava oferecendo-nos uma parábola a respeito da graça, que não pode ser calculada como o salário de um dia. A graça não está relacionada com acabar primeiro ou depois; trata de não levar em conta. Recebemos a graça como um dom de Deus, e não por alguma coisa que nos tenhamos esforçado muito para ganhar.

Philip Yancey - Maravilhosa Graça

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Salmo 6 - Charles Spurgeon

Título

Este Salmo é comumente conhecido como o primeiro dos Salmo Penitenciais, e certamente sua linguagem assenta-se bem nos lábios de um penitente, pois ele expressa ao mesmo tempo as lágrimas (Salmo 6.3,6,7), a humilhação (6.2,4), e o ódio ao pecado (6.8), que são marcas infalíveis de um espírito contrito quando ele volta-se para Deus. Ó Espírito Santo, gera em nós a genuína contrição da qual não necessitamos nos arrepender.
O Título deste Salmo é: “Ao mestre músico sobre Neginoth com Sheminith , um Salmo de Davi,” isto é, para o mestre músico com instrumentos de cordas, sobre oito, provavelmente uma oitava. Alguns pensam referir-se à clave para baixo ou tenor, que certamente adaptar-se-ia bem a esta lamentosa ode. Mas nós não somos capazes de entender estes antigos termos musicais, e mesmo o termo “Selah,” ainda permanece intraduzível. Esta contudo, não deveria ser uma dificuldade em nosso caminho. Nós provavelmente perderíamos ainda muito pouco por nossa ignorância, e isto poderia servir para confirmar a nossa fé. É uma prova da grande antiguidade deste Salmo que ele contenha palavras cujo significado está perdido mesmo para os melhores eruditos da língua hebraica. Seguramente estas são apenas provas incidentais (eu quase poderia dizer acidentais, se não cresse que elas sejam designadas por Deus), de sua existência, o que eles professam ser, os antigos escritos do Rei Davi dos tempos antigos.

Divisão

Você observará que o Salmo é facilmente divisível em duas partes. Primeiro, há a petição do salmista em sua grande agonia, abrangendo do versículo 1 até o final do versículo 7. Então nós temos, do versículo 8 ao final, um tema completamente diferente. O salmista mudou o seu tom. Ele deixa a clave menor, e coloca-se sob sublime tensão. Ele direciona sua nota para a alta clave da confiança, e declara que Deus ouviu sua oração, e libertou-o de todos os seus problemas.

Salmo 6.1-7

1. Senhor , não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor.
2. Tem compaixão de mim, Senhor , por que eu me sinto debilitado; sara-me, Senhor ; porque meus ossos estão abalados.
3. Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, Senhor , até quando?
4. Volta-te, Senhor , e livra a minha alma; salva-me por tua graça.
5. Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro quem te dará louvor?
6. Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago.
7. Meus olhos, de mágoa, se acham amortecidos, envelhecem por causa de todos os meus inimigos.

Tendo lido através da primeira divisão, a fim de vê-la como um todo, nós olharemos, nós a consideraremos agora versículo por versículo.

Salmo 6.1

“Senhor, não me repreendas na tua ira.” O salmista está `plenamente consciente de que merece ser repreendido, e sente, além disso, que a repreensão de uma forma ou outra vem sobre ele, se não para condenação, ainda assim para convicção e santificação. “O milho é limpo com vento, e a alma com castigos.” Era tolice orar contra a mão dourada que enriquece-nos com seus golpes. Ele não pede que a repreensão possa ser totalmente contida, pois ele pode assim perder uma dádiva oculta; mas: “ Senhor, não me repreendas na tua ira.” Se tu lembraste-me de meu pecado, isto é bom, mas, oh, não lembre-me dele como alguém inflamado contra mim, a menos que o coração de teu servo devesse cair em desespero. Assim disse Jeremias: “Corrige-me, ó Senhor, mas com medida justa, não na tua ira, para que não me reduzas a nada.” Eu sei que eu deveria ser punido, e embora eu me esquive de tua vara, ainda assim eu sinto que ela será para meu benefício; mas, oh, meu Deus, “não me castigues no teu furor,” a menos que a vara se torne uma espada, a menos que ferindo, tu devesses também destruir. Então nós podemos orar que as punições de nosso gracioso Deus, se elas não podem ser inteiramente removidas, podem ao menos ser suavizadas pela percepção que são “não em ira, mas em seu amável pacto de amor.”

Salmo 6.2,3

“Tem compaixão de mim, Senhor, por que eu me sinto debilitado.” Embora eu mereça a destruição, permita ainda tua misericórdia apiedar-se de minha fragilidade. Este é o meio correto de suplicar a Deus se desejamos prevalecer. Não apresente sua bondade ou grandeza, mas alegue seu pecado e pequenez. Clame: “Eu estou fraco,” portanto, Senhor, dá-me força e não me venha me abater. Não derrame a fúria de tua tormenta contra um vaso tão fraco. Tempere o vento para o cordeiro tosquiado. Seja terno e compassivo para com uma pobre e murcha flor, e não a quebre de sua haste. Certamente este é o pedido que um homem doente faria para mover a piedade de seu companheiro se ele estivesse se esforçando com ele: “Reparta gentilmente comigo ‘porque eu estou fraco.'” Um senso de pecado tinha assim espoliado o orgulho do salmista, e lançado fora sua exaltada força, que ele achou-se fraco para obedecer a lei, fraco pela aflição em que estava, tão fraco, talvez, para descansar apoiado na promessa. “Eu estou fraco.” O original pode ser lido: “Eu sou alguém que sucumbe,” ou debilitado como uma planta ressecada. Ah! Amado, nós sabemos o que isto significa, porque nós, também, temos visto nossa glória desbotada, e nossa beleza como uma flor murcha.
“Sara-me, Senhor; porque meus ossos estão abalados.” Aqui ele ora por cura , não somente pelo mitigar da doença sofrida, mas por sua inteira remoção, e o curar das feridas que tinham surgido dela. Seus ossos foram “abalados,” como o hebreu o tinha. Seu terror tinha se tornado tão grande que todos seus ossos se agitaram, não somente sua carne tremeu, mas os ossos, os sólidos pilares da virilidade, se fizeram tremer. “Meus ossos estão abalados.” Ah, quando a alma tem um senso de pecado, isto é suficiente para fazer os ossos tremerem; isto é suficiente para fazer os pelos de um homem se ouriçarem ao ver as chamas do inferno abaixo dele, e um Deus irado sobre ele, e perigo e dúvida cercando-o. Bem poderia ele dizer: “Meus ossos estão abalados.” Entretanto, nós deveríamos ao menos imaginar que ele estava simplesmente corporalmente doente – embora corporalmente doente possa ser o sinal exterior – o salmista segue em frente dizendo: “Também a minha alma está profundamente perturbada.” Perturbação da alma e perturbação de toda a alma. Não importa que os ossos tremam se a alma estiver firme, mas quando a própria alma está também muitíssimo abalada, isto é agonia de fato. “mas tu, Senhor, até quando?” Esta sentença termina abruptamente, porque as palavras falham, e o pesar afoga-se no pequeno conforto que amanheceu sobre ele. O salmista, contudo, tinha ainda alguma esperança; mas esta esperança estava somente em seu Deus. Ele portanto clama: “Senhor, até quando?” a vinda de Cristo para o interior da alma em sua túnica sacerdotal de graça é a grande esperança da alma penitente; e , verdadeiramente, de um modo ou outro, o aparecimento de Cristo é, e sempre tem sido, a esperança dos santos.
A exclamação favorita de Calvino era “ Domine usque quo ” – “Senhor, até quando?” Não poderia a sua dor mais aguda, durante uma vida de angústia, forçá-lo a qualquer outra palavra. Seguramente este é o clamor dos santos sob o altar: : Senhor, até quando?” E este deveria ser o clamor dos santos esperando pelas glórias do milênio: “Porque demoram em vir seus carros; Senhor, até quando?” Aqueles de nós que têm passado através da convicção de pecado conheceram o que era contar nossos minutos horas, e nossas horas anos, enquanto a misericórdia demorava em vir. Nós esperávamos pelo alvorecer da graça, como aqueles que esperam pela manhã. Ardentemente nosso espírito pediu: “Ó Senhor até quando?”

Salmo 6.4

“ Volta-te, Senhor, e livra a minha alma.” Como a ausência de Deus foi a principal causa de sua miséria, assim o seu retorno seria suficiente para livra-lo do seu problema. “Oh salva-me por causa das tuas misericórdias.” Ele sabe onde olhar, e sobre qual braço descansar. Ele não descansa sobre a mão esquerda da justiça de Deus, mas sobre sua destra de misericórdia. Ele conhecia sua iniqüidade muito bem para pensar em mérito, ou implorar por para qualquer coisa além da graça de Deus.
“Por causa das tuas misericórdias.” Que pedido! O quanto ele é valioso para com Deus! Se nós nos voltamos para a justiça, que pedido podemos fazer? Mas se nós nos voltamos para a misericórdia , nós podemos ainda clamar, apesar da grandeza de nossa culpa: “Salva-me por causa de tuas misericórdias.”
Observe quão freqüentemente Davi implora pelo nome de Jehovah, que sempre é pretendido onde a palavra Senhor é escrita com letras maiúsculas. Aqui nós a encontramos cinco vezes em quatro versículos. Não é esta a prova de que o glorioso nome é tomado para consolação para os santos tentados? Eternidade, Infinitude, Imutabilidade, Auto-existência, tudo está no nome de Jehovah, e tudo isto está repleto de conforto.

Salmo 6.5

Agora Davi está em grande temor de morte – morte temporal, e talvez, morte eterna. Leia a passagem como você desejar; o versículo seguinte está cheio de poder: “Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro quem te dará louvor?” Os cemitérios das igrejas são lugares silenciosos; a abóbada dos sepulcros não ecoam sons. Terra úmida cobre bocas mudas. “Ó Senhor?” diz ele, “se tiveres misericórdia de mim eu o louvarei. Se eu morrer, então o meu mortal louvor deverá ser suspenso, e eu perecer no inferno, então tu não terás de mim qualquer gratidão. Melodias de gratidão não podem erguer-se do flamejante fosso do inferno. Na verdade tu, indubitavelmente, serás glorificado, mesmo com minha eterna condenação, mas então, Senhor, eu não poderei glorificar-te voluntariamente; e entre os filhos dos homens, haverá um coração a menos para bendizer-te.” Ah! Pobres e vacilantes pecadores, possa o Senhor ajuda-los a usar este impetuoso argumento. É para a glória de Deus que um pecador deveria ser salvo. Quando nós buscamos perdão, nós não estamos pedindo a Deus para fazer aquilo que irá sujar seu estandarte, ou colocar uma mancha em seu brasão. Ele deleita-se em misericórdia. É seu atributo peculiar, favorito. Misericórdia honra a Deus. Não somos nós mesmos que dizemos: “A misericórdia abençoa aquele que dá, e aquele que recebe?” E seguramente, em algum senso mais divino, esta é verdade de Deus, que, quando ele concede misericórdia, glorifica a si mesmo.

Salmo 6.6,7

O salmista dá uma terrível descrição de sua longa agonia: “Estou cansado de tanto gemer.” Ele tinha gemido até que sua garganta estivesse rouca; ele tinha clamado pela misericórdia até a oração tornar-se difícil. O povo de Deus pode gemer, mas não pode resmungar. Sim, eles devem gemer, estando sobrecarregados, ou eles nunca bradarão no dia da libertação. A próxima sentença, nós pensamos, não está corretamente traduzida. Ela deveria ser: “Eu farei minha cama nadar todas as noites,” (quando a natureza necessita descansar, e quando eu estou mais a sós com Deus). Isto é dizer, minha tristeza, agora mesmo, é terrível, mas se Deus não salvar-me logo, ela não permanecerá assim, mas aumentará, até minhas lágrimas serem tantas, que minha própria cama nadará nelas. Uma descrição mais daquilo que ele temia acontecer, do que daquilo que tinha realmente ocorrido. Não podem nossos maus pressentimento de um futuro infortúnio tornarem-se argumentos que encorajam a fé quando buscamos pela misericórdia no presente? “Eu alago o meu leito com minhas lágrimas. Meus olhos, de mágoa, se acham amortecidos, envelhecem por causa de todos os meus inimigos.” Como os olhos de um velho homem tornam-se turvos com os anos, assim diz Davi, meus olhos têm-se tornado vermelhos e débeis pelo lacrimejar. A convicção às vezes tem tal efeito sobre o corpo, que até mesmo os órgãos exteriores são feitos sofrer. Não pode isto explicar algumas das convulsões e ataques histéricos que têm sido experimentados sob a convicção nos avivamentos na Irlanda? É surpreendente que alguns devam ser lançados em terra, e comecem a chorar em alta voz, quando nós encontramos o próprio Davi fez sua cama nadar, e envelheceu enquanto ele estava sob a pesada mão de Deus? Ah! Irmãos, não é algo luminoso alguém sentir-se um pecador, condenado à separação de Deus. A linguagem deste Salmo não é imposta nem forçada, mas perfeitamente natural para alguém em tal tristeza e dificuldade.

Salmo 6.8-10

8. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniqüidade, porque o Senhor ouviu a voz do meu lamento;
9. O Senhor ouviu a minha súplica; o Senhor acolhe a minha oração.
10. Envergonhem-se e sejam sobremodo perturbados todos os meus inimigos; retirem-se, de súbito, cobertos de vexame.

Salmo 6.8

Até aqui tudo tinha sido tristeza e desconsolo, mas agora –
“Vossas harpas, vós santos tementes
Tirai-as dos salgueiros”
Vós deveis ter vossos tempos de lamento, mas, sejam eles curtos. Levantai-vos, levantai-vos, de vosso monturo! Abandone sua roupas de saco e cinzas! O lamento pode durar por uma noite, mas a alegria vem pela manhã
Davi achou paz, e erguendo-se de seus joelhos começou a varrer todo o mal de sua casa. “Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniqüidade.” O melhor remédio contra um homem mau é uma longa distância entre nós e ele. “Vá embora; eu não posso ter comunhão contigo.” O arrependimento é uma coisa útil. Não é suficiente lamentar a profanação do templo do coração, nós devemos escorraçar os compradores e vendedores, e derrubar as mesas dos cambistas. Um pecador perdoado odiará os pecados que custaram ao Salvador o seu sangue. Graça e pecado são contenciosos vizinhos, e um ou outro deverá ser derrotado.
“Porque o Senhor ouviu a voz do meu lamento,” Que fino hebraísmo, e que grande poesia é em inglês! “Ele ouviu a voz do meu lamento.” Há uma voz no lamento? O lamento fala? Em qual linguagem expressa o seu significado? Por que, nesta língua universal, que é conhecida e entendida em toda a terra, e mesmo acima, no céu. Quando um homem lamenta, seja ele judeu ou gentio, bárbaro, cita, servo ou livre, o significado é o mesmo. O lamento é a eloqüência do sofrimento. Ele é um fluente orador, não necessitado de interprete, mas entendido por todos. Não é maravilhoso crer que nossas lágrimas são entendidas mesmo quando nossas palavra falham. Aprendamos a pensar de nossas lágrimas como orações líquidas, e do lamento como um constante gotejar da impertinente intercessão que certamente mostrará sua reta direção dentro do genuíno coração de misericórdia, a despeito das pedregosas dificuldades que obstruem este caminho. Meu Deus, eu “lamentarei” quando eu não puder rogar, porque tu ouves a voz do meu lamento.

Salmo 6.9

“O Senhor ouviu a minha súplica.” O Espírito Santo tinha trabalhado dentro da mente do salmista a confiança que sua oração foi ouvida. Este é freqüentemente o privilégio dos santos. Orando a oração da fé, eles são geralmente assegurados que têm prevalecido com Deus. Nós lemos de Lutero que, tendo em uma ocasião batalhado duramente com Deus em oração, ele saiu pulando de sua câmara gritando, “ Vicimus, vicimus, ” isto é, “Nós conquistamos, nós prevalecemos com Deus.” Firme confiança não é sonho vazio, pois quando o Espírito Santo no-la concede, nós conhecemos sua realidade, e não podemos duvidar, mesmo que todos os homens ridicularizem nossa ousadia.

Salmo 6.10

“Envergonhem-se e sejam sobremodo perturbados todos os meus inimigos.” Isto é mais uma profecia do que uma imprecação, ela pode ser lida no futuro. “Todos os meus inimigos serão envergonhados e sobremodo perturbados.” Eles se retirarão, de súbito, cobertos de vexame, – num momento – sua maldição virá sobre eles repentinamente. O dia da condenação é o dia da maldição, a ambos são certos e podem ser repentinos. Os romanos costumavam dizer: “os pés da Deidade vingadora são calçados com pelos.” Com passos silenciosos a vingança se aproxima de sua vítima, e repentina e esmagador será seu ataque destruidor. Se isto fosse uma imprecação, nós deveríamos lembrar que a linguagem da antiga dispensação não é a mesma da Nova. Nós oramos por nossos inimigos, não contra eles. Deus tenha misericórdia deles, e traga-os para o caminho reto.
Assim o Salmo, como aquele que o precede, mostra as diferentes situações do justo e do ímpio. Ó Senhor, faça-nos ser numerados com o teu povo, agora e para sempre!


Fonte: O texto acima traduzido são excertos do comentário do Salmo 6, do livro Treasury of David, no qual Spurgeon comentou todos os salmos e reuniu diversos e excelentes comentários de outros comentaristas, teólogos e pastores.