Este artigo procura fornecer por meio do
instrumental exegético e da mediação do conceito de fronteira uma análise do contexto
da narrativa parabólica que se encontra no evangelho de Lucas 15. 11-32. Tal
parábola evidencia um conflito entre dois grupos em busca da identidade dentro
de uma comunidade cristã em Antioquia.
Uma rápida visão acerca da estrutura de Lc 15. 11-32 O trecho de Lc 15. 11-32 apresenta uma parábola
dupla, e cada metade tem a sua estrutura própria. A primeira metade encontra-se
nos versículos 11-24 e a segunda nos versículos 25-32. As duas partes são
semelhantes, mas diferentes. Bailey organiza essa parábola dupla em
estrofes que combinam uma com a outra usando paralelismo invertido ou em degrau
e outras correspondências semânticas. Dessa forma,
a estrutura da primeira metade é a seguinte:
A - Havia um homem que tinha dois
filhos
1 Um filho é perdido (v.12)
2 Bens gastos com uma vida cara (v.13)
3 Tudo perdido (v.14)
4 O grande pecado; cuidar de porcos para os gentios (v.15)
5 Total rejeição (v.16)
6 Mudança de mente (v.17)
6’ Arrependimento inicial (v.18-19)
5’ Total aceitação (v.20)
4’ O grande arrependimento (v.21)
3’ Tudo ganho; restaurado a filiação(v.22)
2’ Bens usados na alegre celebração (v.23)
1’ Um filho é achado (v.24).
A segunda metade é uma repetição da primeira. O princípio da inversão é usado
outra vez. Vejamos sua estrutura literária.
B - Ora, o filho mais velho estava nos campos
1 Ele vem (v.25, 26)
2 Teu irmão- ileso- uma festa (v.27)
3 Um pai vem para reconciliar (v.28)
4 Queixa I (como me tratas) (v.29)
4’ Queixa II (como tratas a ele) (v.30)
3’ Um pai tenta reconciliar (v.31)
2’ Teu irmão- ileso- uma festa (v.32)
1’ ............................ (faltando)
As ligações entre as estrofes são claras. No centro apoteótico as duas queixas
combinam linha a linha em paralelismo em degrau. Na estrofe 3 o pai vem para
reconciliar-se, enquanto que na 3’ ouvimos um discurso de reconciliação. A
estrofe 2 é um relatório da festa dado por um rapaz, e em 2’ o pai defende
o fato de ter iniciado esses mesmos eventos. O término está faltando: não há
estrofe 1’, algo está inacabado.
Não à exclusão
A porção bíblica de Lc 15.11-32 é uma narrativa
parabólica. Tal narrativa trata de um acontecimento de caráter único e não
costumeiro o qual é narrado pormenorizadamente. Constata-se uma tendência de
apresentar os personagens em determinada relação social (estrutura: superior,
inferior; ou direito, subalterno), por exemplo, a figura paterna. Com
freqüência são apresentados dois grupos, um dos quais é preciso escolher. O seu
fundo literário geral é o gênero das fábulas antigas, na medida que se referem
as seres humanos. Muitas dessas fábulas começam, como a parábola de Lc
15.11-32, com "havia um homem". As narrativas parabólicas raramente
são autônomas com relação ao contexto e tem amiúde função retórica,
argumentativa. Para a apreciação sistemática das parábolas, isso acarreta a
necessidade de se prevenir contra a tendência de isolá-las de seu contexto. Tal
isolamento teria por conseqüência a superestimação do peso teológico da
parábola. Trata-se de problemas fundamentais como a riqueza, a compaixão com os
irmãos e com o próximo em geral e a justificação da abertura para pecadores e
pagãos. E sempre está em jogo a unidade da comunidade. Não se justifica a
oposição daqueles que já estão dentro há mais tempo contra a admissão ou
equiparação de novatos menos privilegiados.
Situando o evangelho
Não há consenso acerca da autoria, do local da
composição e da datação do evangelho de Lucas.Diante da impossibilidade de
identificação do autor, o mais sensato seria admitir como Kummel que somente
uma coisa se pode afirmar com certeza a respeito da sua autoria: trata-se
de um cristão proveniente da gentilidade.m relação ao local de autoria, situo
este evangelho na cidade de Antioquia, visto que o Livro de Atos guarda uma
forte memória da igreja localizada nesta cidade (Atos 11.19-26; 13.1-3) e
também por possuir todos os aspectos de uma cidade fronteiriça. 5 Assim como
não há consenso quanto a localização do evangelho de Lucas, também não há
quanto a sua datação. Mesters o situa em torno do ano de 85.6 Storniolo
entre 80 e 90.7 No entanto,
uma posição mais cautelosa nos leva a datá-lo entre os anos 70 e 90.
Entre dois mundos
Herdeiro do pensamento paulino anti-romano, o autor
de Lucas inverte a cosmovisão de sua época de que Roma seria o centro do mundo
habitado e que a Judéia seria apenas um local desprezível nos confins da terra.
Para ele o centro ou a "polis" passara a ser a Judéia em detrimento
de Roma (asty). Entre estes dois extremos situava-se a cidade de
Antioquia (khora), lugar em que provavelmente foi composta a obra
de Lucas-Atos e uma região onde as comunidades eram diásporas e as fronteiras
na realidade não imobilizavam, mas, curiosamente eram constantemente
atravessadas. A obra de Lucas reflete as características de fronteira fluída
desta região. Assim, para o autor de Lucas Jerusalém seria a polis, Antioquia a khora e as regiões do mediterrâneo incluindo Roma a asty.
Em Antioquia se deu a interseção entre o
cristianismo judeu e o cristianismo do mediterrâneo. Este encontro não envolveu
apenas pessoas como também raças, continentes e culturas. Por ser uma
comunidade fora do controle de Jerusalém, a comunidade de Antioquia
representava um cristianismo marginal (não oficial) e, por isso, mais aberto ao
mundo do que o cristianismo praticado pela comunidade judaico- cristã. Era
uma comunidade mista na qual conviviam no mesmo espaço gentios e judeus, ricos
e pobres, homens e mulheres. Por conta disso, havia tensões internas e externas
que sacudiam o seio desta comunidade. Os conflitos produzidos no interior da
comunidade de Antioquia eram o reflexo da elaboração de fronteiras9 entre grupos,
principalmente entre o cristianismo judaico e o greco-romano. O evangelho de
Lucas é o resultado de um processo sincrético que procura resolver estas
constantes tensões.
O conflito na comunidade lucana parece gravitar em
torno da aceitação na comunidade de um grupo de pessoas oriundas do mundo
gentílico que não cumpriam as exigências das leis de pureza judaicas. Estas leis
tinham grande importância porquanto eram símbolos da identidade de grupo dos
judeus.10Após a guerra
Judaica e a destruição do templo, o conceito de pureza, que era
espacial-geográfico, passa a ser ritual. O conceito de sagrado, que era ligado
à terra e ao espaço, passa a se ligar, a práticas rituais ligadas a pureza.
Assim, a violência e a exclusão eram dirigidas a todos que não cumpriam os
princípios de pureza.11
Em contraste a postura judaica exclusivista, o
autor de Lucas nos apresenta parábolas que denunciam tal arbitrariedade e
propõe uma inversão da posição dos judeus em relação aos gentios. O cumprimento
cego das exigências da lei pelos judeus não alegraria a Deus. A celebração da
vinda do reino tomou lugar na participação da mesa de Jesus com os rejeitados,
por isso, o zelo excessivo no cumprimento da lei judaica tornou-se uma
barreira separando os gentios rejeitados e os judeus contribuindo para ausência
deste último grupo na mesa.ejamos, então, o que o texto nos fala.
Pai e filhos (parte I) 15.11-24
A parábola em estudo inicia no v.11 com um "um certo homem" que
era pai de dois filhos. Ao introduzir os dois filhos no início do relato, o
autor prepara o leitor para o papel que ambos desempenharão na trama.
No verso 12 somos confrontados com o filho mais
jovem pedindo sua parte da herança. As leis a respeito de tais transações não
são muito claras, porém é bastante claro que a pretensão do filho mais novo era
desrespeitosa e irregular. De acordo com a lei mosaica que pode ter sido
designada para proteger o direito do irmão mais velho contra o favorecimento do
filho mais novo, o irmão mais velho tinha direito ao dobro da herança (Dt
21.17). Segundo J. Jeremias havia duas formas de transmissão de posse de pai
para filho: por testamento ou por doação entre vivos. Neste último o
interessado recebia imediatamente o capital e somente depois da morte do pai
recebia o gozo do uso. O filho recebia o direito de posse, seu pai não podia
vender os campos, e não o direito de dispor, se o filho vendesse a propriedade,
o comprador tomaria posse somente depois da morte do pai. Portanto, o gozo do
uso ficava com o pai até a sua morte.
Apesar dessas provisões Sirach, um sábio judeu (190 a. C.) previne contra a
prática repartir a herança enquanto o pai ainda está vivo ligando isto a
questão da honra do pai. Isto nos levanta a suspeita de que tal prática
seria comum. No entanto Bailey em sua analise cultural do Oriente Médio
demonstra que tal prática era algo irregular ao extremo. Ele admite que o texto
de Sirach não demonstra que o procedimento era comum. Antes, reflete a postura
predominante da comunidade. Além disso, o texto de Sirach apresenta o pai
distribuindo uma herança e não um filho pedindo por ela. De fato, o filho mais
novo desejava a morte do pai, porquanto a noção de passar uma herança
enquanto alguém estava em boa saúde era algo impensável.[O filho mais
novo estava quebrando os laços familiares e tratando o seu pai como se estivera
morto. Assim sendo, a resposta do pai no v.12b é muito apropriada, "e ele
lhes dividiu a vida
Dividir a herança enquanto o pai estivesse vivo era
um grande insulto e o irmão mais velho deveria recusar a petição de seu irmão e
intervir como um conciliador. Por sua vez, o pai cede ao filho a posse e a
disposição dos bens demonstrando um ato de amor sem precedente que dá liberdade
até para rejeitar a pessoa que ama enquanto o filho mais velho aceita
silenciosamente sua parte negando-se a desempenhar o seu papel de conciliador
deixando evidente que havia problemas no seu relacionamento tanto com seu pai
quanto com seu irmão. Ambos os filhos fracassaram na tentativa de viverem juntos,
em unidade com seu pai.
A ação do filho mais jovem relata seu distanciamento e alienação progressiva de
sua família, má administração de sua herança e decadência em pobreza e
privação. O v.13 nos informa primeiramente que ele ajuntou seus bens e
partiu para uma terra distante. A fim de
entendermos este termo é necessário que haja uma compreensão do que viria a ser
uma polis grega. Para Chevitarese, a polis era um espaço territorial urbano
marcado pela ação e tensão sociopolítica. Apresentava posições marcadamente
conservadoras baseadas em relações fundadas nos valores de honra e vergonha. A
polis também possuía uma Khora que era sua zona rural a qual fazia fronteira com a asty ou terras marginais. Esta área por causa da imprecisão fronteiriça era
um lugar de intensas disputas e um lugar onde as fronteiras eram fluídas.
Ao contrário da polis, nesta zona fronteiriça as
posições não eram conservadoras, porquanto refletiam a interação vivida com as
outras terras marginais. Nesta zona fronteiriça havia espaço para a ação no
manejo da cultura;
Para o autor de Lucas esta "terra
distante" representava uma terra gentílica, a própria Antioquia, por ser
uma cidade fronteiriça. Além disso, representava a alienação do filho mais novo
de sua família. J. Jeremias demonstra que não havia nada de errado com a
emigração no primeiro século, devido a fome freqüente na palestina e as condições
de vida mais favoráveis nas grandes cidades comerciais, muitas pessoas
mudaram-se para o exterior.
Em segundo lugar, o v.13 nos informa que ele gasta
rapidamente sua herança "vivendo dissolutamente". Ademais, o
começo de uma grande fome levou o jovem a enfrentar grave necessidade.
Finalmente no v.15, sem o apoio da família, ele
procura trabalho com um cidadão local. Trabalhar para um gentio era algo
proibido para um judeu (At 10.28), um fato exemplificado pela sua baixa
consideração pelos coletores de impostos (Lc 15.1). Desesperado, o jovem aceita
alimentar os porcos, animal considerado impuro e, por isso, um trabalho
degradante para um judeu (Lev 11.7; Dt 14.8; 1 Mac 1.47). Portanto, esse rapaz
se viu forçado a romper com a tradicional prática e vida judaica (sábado,
etc.).
O v.16 retrata de forma dramática a completa queda e a desesperada necessidade
enfrentada pelo filho mais novo, o fato de ninguém lhe dar comida o levou a
desejar satisfazer-se com alfarrobas que os porcos comiam. A necessidade
de ter o que comer fez com que o filho mais novo perdesse a sua dignidade e
recebesse tratamento pior do que os porcos. Essa era a condição de vida de
milhões de pessoas no império. Segundo Crossan, no Mediterrâneo oriental, a
luta pelo controle do pouco excedente agrário existente era, em geral, mais
impiedosa nos limites das grandes cidades. As vítimas eram, de maneira quase
inevitável, os camponeses; e o resultado era a condição crônica de escassez e
desnutrição, sempre prestes a se transformar em fome e epidemia. Se existia, a
abundância só se encontrava entre os ricos e seus clientes nas cidades. É provável que neste ponto da parábola, o autor faz
uma crítica ao sistema econômico greco-romano que favorecia uma pequena elite
em detrimento da grande maioria da população que vivia na miséria.
Não há consenso quanto ao que realmente são estas
alfarrobas, no entanto, Bailey sugere que seja simplesmente um arbusto no qual
os porcos podem cavoucar a terra procurando as suas bagas. Elas podem ser
comidas pelo seres humanos, mas é amarga e não tem valor nutritivo. O pródigo
não conseguiu encher o estômago com elas.
No v.17 através de um solilóquio, um dispositivo
narrativo comum nas parábolas lucanas, podemos ver diretamente o coração do
personagem (ex. Lc 12.17-19). Assim, o rapaz repensa a sua situação, "cai
em si" e percebe que é melhor voltar para casa. Porquanto, na casa de seu
pai até mesmo os trabalhadores tinham
abundância de comida. Para Jeremias a expressão "e caindo em tanto em
hebraico como em aramaico aponta para o significado de
"converter-se". Aqui a fome do rapaz estimula o arrependimento. Não
existe uma dicotomia entre fome e arrependimento. No entanto, existe uma tensão
no entendimento representado nas três parábolas de Lucas 15. Nas duas primeiras
parábolas, a ovelha e a moeda são simplesmente encontradas, elas não
desempenham um papel ativo. Porém, na parábola ora estudada o filho realiza o
movimento inicial e é incondicionalmente recebido pelo seu pai.
O monólogo prossegue no v.18, o rapaz resolve
despertar da sua letargia e desespero, isto fica evidente pela expressão
"levantar-me-ei e irei". A frase "pequei contra o céu e contra
ti" (revela a percepção de que o erro cometido não era apenas contra
o seu pai pois ele havia violado o quinto mandamento (Dt 5.16).
O rapaz finaliza seu pensamento no v.19, aqui
dominado pela vergonha ele não se vê no direito de ser restaurado como filho e
sim como "um dos trabalhadores assalariados" de seu pai. Sendo
assim, no v.20, ele decide levantar e voltar para seu pai. Aqui o ponto de
vista muda do filho para o pai.
Ao avistar seu filho, "porém ainda
distante", o pai não se contenta em esperar passivamente, ele corre para encontrá-lo
e o abraça calorosamente. Observe que o pai vai ao encontro do filho enquanto
estava ainda distante. Na antiga Palestina, o fato de um homem correr era visto
como inconveniente ou como uma perda de dignidade. O pai estava preparado a violar tradições para
reconciliar e dar boas vindas ao seu filho que se encontrava perdido.
O caráter do pai é definido pelas expressões
"teve compaixão", "inclinou
sobre seu pescoço" e
"beijou repetidamente", assim, seu coração compassivo, uma compaixão
que precede a confissão do seu filho. A atitude amorosa do pai ao abraçar e
beijar seu filho considerado imundo, e, conseqüentemente morto pelas leis de
pureza judaicas, era uma crítica contra a postura judaica de violência e
exclusão dirigida aqueles que não se enquadravam nas regras de pureza. O perdão
imerecido era o oposto do que era esperado. Em vez de provar a hostilidade, o
rapaz entra na aldeia sob o cuidado e proteção do pai.
A seguir, o pai passa instrução para que seus
servos peguem a melhor túnica, um anel e sandálias para seu filho. É um sinal
para o resto da aldeia de que o rapaz será tratado como filho novamente (Gen
41.42; 1 Mac 6.14-15). Ele é um homem livre, um convidado honrado, um filho. A
demonstração do extremo amor do pai continua (v.23).
O pedido para matar um novilho cevado representa o
clímax de sua hospitalidade. Para Greg Forbes o verbo
"regozijemo-nos" que encerra
este versículo é de extrema importância, pois: "aponta para uma
celebração comunal, um tema que conecta cada uma das três parábolas deste
capítulo. O banquete serve como uma oportunidade para reconciliar o rapaz com a
aldeia inteira. Além do que, a celebração e a imagem festiva contrasta com as
alfarrobas e ajuda a sublinhar as extremidades do perdido-achado, do
pecado-arrependimento e da alienação e restauração. Dando o contexto de
perdão-salvação, a imagem aqui pode também carregar ecos do banquete
messiânico" ( Lc 13.28-29; 14.15-24).
As palavras do pai no v.24 traduz o motivo da festa
"porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi
achado". O jovem rapaz estava culturalmente e fronteiriçamente
"morto" nekro.je
completamente "perdido" avpolwlw.j, portanto, separado da comunhão da sua família e do amor de seu pai. No
entanto, esta situação aparentemente irreversível se reverteu. Por isso, a
celebração inicia.
Pai e filhos (parte II)
A celebração serve como estímulo para a segunda
parte da parábola. No verso 25, a cena muda para o filho mais velho que está
voltando de seu trabalho no campo. Esta imagem evoca o quadro de um filho ainda
em casa, porém distante de seu pai. Ao se aproximar ele ouve a celebração, músicas e dança. Ele
chama um dos meninos33 e pergunta o que estava acontecendo (v.26).
A resposta segue no v.27 "teu irmão está
presente, e matou teu pai o novilho cevado, porque em boa saúde o recebeu de
volta". No v.28 o filho mais velho irado, pelo rápido perdão oferecido ao
seu irmão, recusa entrar na casa para participar da celebração. O imperfeito
"queria" capta sua persistente recusa em entrar para juntar-se
na celebração. Novamente a
trama é caracterizada pela distância e separação entre o filho e o pai. Bailey
observa que a ira e a recusa de participar da celebração eram insultos
profundos contra o pai diante do público. Contudo, o paralelismo continua quando mais uma vez
o pai se humilha ao sair de sua casa para se encontrar com seu filho, uma
demonstração de amor inesperado. Em vez de censurar seu filho ele suplica para
que entre. O imperfeito "continuava a rogar". A recusa persistente do
filho vem ao encontro da persistente suplica do pai.
Aqui no verso 29 o filho mais velho começa a dar
forma a sua ira. Em todo o tempo o irmão mais novo se dirige a seu pai
respeitosamente "Pai", mesmo em seu solilóquio (v. 12, 18, 21).
Entretanto, seu irmão mais velho recusa em reconhecer sua relação com o seu pai
e com o seu irmão. Ele abre seu discurso com a palavra "veja". em vez de "Pai". Mesmo assim, o irmão mais velho julgava-se um filho
modelo e servidor de seu pai. O uso do verbo "sirvo", demonstra que ele não entendia o que significava a relação entre pai e
filho. De fato, ambos os filhos acreditavam de forma errônea que o seu pai os
aceitariam por agirem como servos. A ironia lucana transparece na continuação
do discurso do filho mais velho.
Pouco depois de envergonhar seu pai em público, ele
alega que nunca havia desobedecido uma só das ordens de seu pai. Indignado, no
v.30, ele dirige suas criticas a seu irmão referindo-se de forma depreciativa
"este teu filho" preocupando-se
apenas com a propriedade desperdiçada com as meretrizes. A palavra
"meretrizes" metaforicamente
pode assumir o significado de "idolatria (Ap 17.5)". Talvez esta
palavra foi inserida aqui não simplesmente para denotar "uma mulher
que vende seu corpo", mas, faz menção de forma pejorativa a nação
gentílica considerada idolatra e impura pelos judeus. Em sua fala final o filho
mais velho novamente demonstra a sua decepção por seu pai ter matado um novilho
cevado para festejar o retorno de seu irmão, na sua concepção, este ato
demonstrara certa preferência do pai pelo seu filho mais novo. Embora o filho
mais velho não tenha se dirigido ao pai de forma respeitosa "Pai", a primeira
palavra do pai "filho" demonstra
todo o seu afeto por ele (v.31). A sentença quiástica sublinha o relacionamento
entre eles: "tu sempre comigo estas e tudo o que é meu é teu." Com
efeito, o pai relembra ao filho mais velho que por direito tudo lhe pertence
porquanto seu irmão mais novo já havia recebido a sua parte na herança. As
ações do pai demonstram o seu amor por ambos os filhos. O novilho cevado não
foi morto porque o pai tinha alguma preferência pelo filho mais novo, mas
porque ele havia retornado com vida (v.32). Neste mesmo verso o pai não está
somente justificando a festa, antes está convidando o seu filho mais velho a
juntar-se a celebração. Com a frase "esse teu irmão" o pai enquadra o filho mais velho na mesma categoria do mais novo, eles
são irmãos, e relembra o relacionamento que o filho mais velho teimava ignorar
(v.30). O mais velho não tem o direito de fazer distinção. Se ele quer tê-lo
como pai é mister que também aceite a seu irmão. A parábola não diz qual foi a
resposta final do irmão mais velho. Ela deixa em aberto. Caberia ao leitor da
parábola a tarefa de dar a resposta.
Conclusão
Assim sendo, nas entrelinhas de nosso texto podemos
vislumbrar lampejos do contexto em que estava inserida uma comunidade cristã
fronteiriça. A atitude do pai amoroso, do filho mais novo e do filho mais velho
nos remete respectivamente a ação de Deus, da comunidade greco-romana e da
comunidade judaica em Antioquia. Ambas as comunidades tinham posições
antagônicas acerca da identidade da comunidade cristã. A proposta mais
tolerante da comunidade greco-romana entrava em conflito com as leis de pureza
dos judeus cristãos, as quais tornavam a comunidade judaica menos flexível a
incorporação de gentios. Os judeus cristãos enrijeceram fronteiras geográficas
e mentais que os distanciavam da prática da comunhão de mesa com os gentios
da comunidade. Eles queriam evitar qualquer processo de assimilação,
porquanto correriam o risco de perder a sua própria identidade. Devido ao
conflito gerado na comunidade de Antioquia, o autor lucano apresenta um projeto
audacioso e inclusivo para ambos os grupos. Sua intenção era romper as
fronteiras que geravam violência e exclusão. Tanto o filho que estava
geograficamente longe de Deus quanto o que estava perto desobedeceram ao
mandamento divino. O perdão do pai, Deus, seria somente concedido por meio do
reconhecimento de tal erro e da comunhão de mesa e, dessa forma, ambos seriam
aceitos pelo pai no banquete messiânico.
BIBLIOGRAFIA
BAILEY, K. E. Finding the Lost: Cultural Keys to Luke 15. St. Louis, Concordia, 1992.
BAILEY, Keneth E. As parábolas de Lucas; a
poesia e o camponês: uma análise literária-cultural. São Paulo, Vida Nova, 1985.
BERGER, Klaus. As formas Literárias do Novo
Testamento. São Paulo, Loyola, 1998.
CASSIDY, Richard J. Jesus politics, and society: a study of Luke’s gospel. New York, Orbis
Books, 1978.
CHEVITARESE, André Leonardo.
Fronteiras internas atenienses no período clássico. (Re)definindo conceitos e
propondo instrumentais teóricos de análise, in: PHOINIX, Rio de Janeiro, n. 10, 2004.
CROSSAN, John Dominic. O nascimento do cristianismo:
o que aconteceu nos anos que se seguiram à execução de Jesus. São Paulo, Paulinas, 2004.
FORBES, Greg. Repentance and Conflict in the Parable of the Lost Son (Luke
15.11-32), in: Journal of the Evangelical
Theological Society, n.42, 1999.
FRIBERG, Barbara; FRIBERG, Timothy; MILLER, Neva F. Analtiycal Lexicon of the
Greek New Testament. Backer’s Books,
2000.
GARCIA, Paulo Roberto. O sábado do Senhor teu Deus: o
evangelho de Mateus no Espectro dos movimentos judaicos do I século. São Bernardo do Campo,
Universidade Metodista, 2001.
HANNERZ, Ulf. Fluxos,
fronteiras, híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional, in:Mana, vol. 3, 1997.
JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. São Paulo, Paulus, 1986.
KUMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo, Paulus, 1982.
LOUW, Johannes E.; NIDA,
Eugene A. Greek-English Lexicon of the
New Testament: Basead on Semantic Domains. New York, United Bible Societies, 1989.
MESTERS, Carlos; LOPES,
Mercedes. O Avesso é o Lado Certo-
Circulos Bíblicos sobre o Evangelho de Lucas. São Paulo-São Leopoldo, Paulinas-Cebi, 1998.
MOXNES, Halvor. A economia do reino: conflito
social e relações econômicas no evangelho de Lucas. São Paulo, Paulus,
1995.
SCOTT, B.B. Hear Then the Parable .Minneapolis: Fortress, 1989.
STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Lucas:
os Pobres Constroem a Nova História. São Paulo, Paulus,
2004.
THAYER, Joseph Henri. A Greek-English Lexicon of the New Testament. International Bible Translator, 1998.
The New Interpreter’s Bible, v. IX-A Commentary in Twelve
Volumes – Luke and John. Nashville, Abingdon Press,
1994.
Fonte: Blog Meditando na Palavra