Mostrando postagens com marcador Biografias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Biografias. Mostrar todas as postagens

sábado, 31 de outubro de 2015

AGOSTINHO DE HIPONA: VIDA E OBRA

Aurélio Augustinus (Santo Agostinho) nasceu em Tagaste, província romana de Numídia na África (hoje chamada Souk-Ahrás, na atual Árgélia, norte da África), em 13 de novembro de 354.
Seu pai, Patrício, um conselheiro municipal de Tagaste, era um pagão que se converteu ao cristianismo pouco antes de morrer, em 371. Sua mãe, Mônica (Santa Mônica), cristã fervorosa, teria um papel marcante na vida de Agostinho. Além de Agostinho, Patrício e Mônica tiveram mais dois filhos: Navígio, que morreu ainda jovem, e um a irmã, Perpétua (Santa Perpétua), que depois de enviuvar, entrou para vida religiosa, chegando a ser superiora de convento feminino no agostiniano.
Em Tagaste, Agostinho recebeu seus primeiros estudos de gramática, aritmética, latim e um pouco de grego, língua esta que nunca chegou a dominar bem.
Em 365, com 11 anos de idade, foi enviado a Madaura, uma cidade maior, para estudar educação geral. Ali, Agostinho logo começou a brilhar entre seus colegas, e os mestres prediziam-lhe um futuro brilhante. Em contrapartida, sua conduta moral foi, aos poucos, decaindo, na busca de prazeres mundanos.
No início de 370, Agostinho concluiu os estudos e tornou a Tagaste. Ali continuou sua vida de desfrutes, praticando uma série de desmandos junto com outros jovens, como, por exemplo, o famoso “roubo das peras” narrado por ele nas Confissões. Foi naquela época que iniciou, e manteve até os trinta anos, um romance com uma mulher, com a qual, em 372, veio a ter um filho – Adeodato.
Em fins de 370, com 16 anos de idade, depois de quase uma no de ociosidade e vícios, foi enviado a Cartago, capital de Numídia, para fazer seus ensinos superiores.
Com 19 anos, em meio aos seus estudos em Cartago, conheceu e leu a obra Hortensius, de Cícero. Neste livro, o velho atributo, desiludido das ambições políticas, volta-se para a filosofia e exprime suas alegrias na busca das verdades eternas. Esta obra despertava-lhe o gosto pela filosofia, amor intenso pela verdade.
O livro de Cícero foi uma espécie de revelação que o levou a defrontar-se com as verdades eternas. Verdades estas que o perturbariam até sua conversão definitiva ao cristianismo. Entretanto, naquele momento, o supracitado livro ainda não foi capaz de acalmar seu inquieto coração, pois, por mais que tivesse se desviado da religião cristã, seu coração fora marcado pelas palavras de Cristo, pronunciadas por sua mãe. Por isso, nas confissões, Agostinho, ao ler a obra de Cícero, lamenta não ter encontrado nela o nome de Cristo: “Uma coisa me magoava no meio de tão grande orador: não encontrar aí o nome de Cristo” (Conf., III, 4).
Na ausência do nome de Cristo no Hortensius levou Agostinho a procurar a Bíblia, fato que o deixou decepcionado, pois, diante da majestade da obra de Cícero, a Bíblia parecia indigna e modesta: “A sua simplicidade repugnava ao orgulho, e a luz da minha inteligência não lhe penetrava no íntimo” (Conf., III, 5).
Depois da experiência frustrada da leitura da Bíblia, na angústia de encontrar a verdade, Agostinho foi procurar estar em outros lugares. Foi aí que entrou para a seita gnóstica dos maniqueus, onde permaneceria por nove anos (374-383).
De certa forma, o maniqueísmo respondia, pelo menos num primeiro momento, às grandes preocupações de sua vida: encontrar uma explicação ou justificativa para seus erros e contradições, a força que o impulsionava a praticar o mal.
O maniqueísmo era uma seita filosófico-religiosa que se originou na Pérsia, fundada por Mani, que misturava doutrinas do Zoroastro com o cristianismo. Sua tese fundamental consistia em afirmar a existência de dois princípios ontológicos coeternos, criadores do Bem e do Mal, que continuaram em luta no mundo. Trazendo isso para a prática, o maniqueísmo afirmava que o mal que está em nós, ou que cada um pratica, não é por responsabilidade própria, mas por culpa do princípio do mal.
Em Cartago, Agostinho fez um grupo de amigos que formavam a base de sua escola, com quem discutia questões filosóficas. Dessas discussões nasceu seu primeiro livro, De Pulchro et apto (Sobre o belo e o conveniente). É a única obra de Agostinho que se perdeu no tempo.
A partir das leituras dos filósofos gregos e latinos (vistos no curso de Cartago), as respostas maniqueias já não satisfaziam mais Agostinhos. A desilusão instalou-se no seu coração, que não abandonaria definitivamente o maniqueísmo, mas entraria, aos poucos, numa base de ceticismo.
Em 383, aos 29 anos de idade, atraído pela possibilidade de maiores lucros e honras resolve transferir-se para Roma, onde abriria uma escola de retórica. Em pouco tempo, conseguiu fama de orador, tendo sido procurado por várias autoridades, dentre elas Símaco, prefeito da cidade que viria a ter grande admiração por ele.
No ano seguinte, foi convidado por Símaco a ocupar o cargo de orador e professor (rector) da corte imperial. Tendo aceitado o convite, no verão de 384 Agostinho partiu para Milão como funcionário público, onde foi recebido pelas autoridades imperiais, intelectuais e eclesiásticas com grande simpatia e curiosidade.
Milão florescia como uma cidade brilhante. Para lá acorria uma legião de poetas, escritores, oradores e filósofos. A filosofia grega ganhava ali seus adeptos entre os leigos e o clero, especialmente o neoplatonismo, que dominava o ambiente cultural. O catolicismo era importante na cidade. O bispo da cidade, Ambrósio, pronunciava sermões eruditos, elaborados segundo a tradição neoplatônica.
Atraído pela fama de orador do Bispo Ambrósio, Agostinho resolveu ouvi-lo, no início, não pela fé, mas pela curiosidade. As pregações de Ambrósio não levaram, de imediato, Agostinho à Igreja Católica, mas lançaram luz sobre sua alma e, aos poucos, foram acabando com as dúvidas dos seus tempos de maniqueísmo e ceticismo.
Em Milão, pressionado pela nova condição social, Agostinho resolveu casar-se, chegando a pedir a mão de uma jovem de família rica. Entretanto, segundo o próprio Agostinho, o enlace não foi possível, pois “faltavam-lhe [...] quase, dois anos para chegar à idade núbil” (Conf., VI, 13). Sentindo-se traída por Agostinho ter pedido a mão de uma jovem em casamento, sua concubina resolveu abandoná-lo e voltou para a África, e deixando com este seu filho Adeodato.
Em Milão, aos 32 anos, além de Ambrósio, Agostinho conheceu Mânlio Teodoro, personalidade política, que chegou ao cargo de cônsul. Era um homem culto, amante da filosofia neoplatônica. Através dele, leu as Enéadas, de Plotino, traduzidas do grego para o latim por Mário Vitorino.
Através das leituras de Plotino, Agostinho descobriu que Deus é a fonte única de todo bem e que o mal não forma uma substância. Bem como o nous, ou razão natural, remonta ao logos do Evangelho de São João. Foi um importante passo para que Agostinho vencesse seu materialismo rumo a uma especulação filosófico-religiosa.
As leituras neoplatônicas lançavam grandes luzes no coração de Agostinho. Este resolveu procurar Ambrósio, em cujos sermões ouvira falar, muitas vezes, do Plotino. Depois de uma longa conversa, o bispo o aconselhou a procurar Simpliciano, um cristão exemplar que poderia trazer-lhe as respostas que precisava.
Ao procurar Simpliciano, Agostinho contou-lhe que havia lido os escritos neoplatônicos e revelou suas insatisfações. Ele reforçou os méritos dos platônicos, mas chamou a atenção para seus enganos racionais. Em contrapartida, para tal, exalta a necessidade da humidade e redenção divina. E conta-lhe acerca da recente conversão de Mário Vitorino, como exemplo de humildade cristã.
O relato da conversão de Vitorino comoveu Agostinho, como ele mesmo declarou: “Logo que vosso servo Simpliciano me contou tudo isto de Vitorino, imediatamente ardi em desejos de imitá-lo” (Conf., VIII, 5). No final da conversa, Simpliciano aconselhou Agostinho as Sagradas Escrituras, especialmente as cartas paulinas: “Por conseguinte, lancei-me avidamente sobre o venerável estilo (da Sagrada Escritura) ditado pelo vosso Espírito, preferindo, entre outros autores o Apóstolo São Paulo [...]. Comecei a lê-los e notei que tudo o que de verdadeiro tinha lido nos livros platônicos se encontravam naqueles [...]. Com uma grande diferença: os livros platônicos, ao identificarem o Verbo de Deus, ou logos, com o nous, ou razão, esqueciam de dizer que o ‘Verbo se fez homem e habitou entre nós’ (Jo 1,13)” (Conf., VII, 21).
A partir da conversa com Simpliciano, Agostinho passou a viver o dilema entre servir a Deus, a exemplo de Vitorino, ou continuar sua vida devassa. Conflito este que se agravaria até o momento de sua conversão e que se caracterizava pelo que ele chamou de “luta entre duas vontades”: “A vontade de nova que começava a existir em mim, a vontade de vos honrar gratuitamente [...] ainda não se achava apta para superar a outra vontade, fortalecida pela concupiscência [...]. Eu estava certo de que entregar-me ao vosso amor era melhor que ceder ao meu apetite. Mas o primeiro agradava-me e vencia-me; o segundo aprazia-me e encadeava-me [...]” (Conf., VIII, 5).
Outro acontecimento importante para a conversão de Agostinho fora o encontro com Ponticiano, um cristão fiel e compatriota africano que exercia um alto cargo no palácio, que viera visitar Agostinho e que, ao chegar em sua casa, falou acerca da vida de Santo Antão – um monge do Egito até então desconhecido por Agostinho e seus amigos – e de seus seguidores. A narrativa de Ponticiano levou Agostinho a comparar a vida dos jovens que seguiram Santo Antão e a sua, e isso aumentou ainda mais a sua angústia e seu conflito interior: “Quanto mais amava aqueles jovens, de quem ouvia contar salutares exemplos, tanto mais execravelmente me odiava, ao comparar-me com eles [...]. Vós, Senhor, enquanto ele falava, me fazíeis refletir sobre mim mesmo [...]. Vós me colocáveis a mim mesmo diante de mim, e me arremessáveis para a frente de meus olhos, para que, ‘encontrando a minha iniquidade, a odiasse’. Conhecia-a, mas fingia que não via, procurando esquecê-la [...] Vós me colocáveis perante o meu rosto, para que visse como andava torpe, diforme, sujo, manchado e ulceroso. Via-me e horrorizava-me; mas não tinha por onde fugir [...]. Assim me roía interiormente, confundindo-me com horrível e acentuada vergonha, enquanto Ponticiano falava (Conf., VIII, 7).
Terminada a narrativa, Agostinho ficaria profundamente perturbado, sua alma recusava-se a escusar, “tinha medo, como de morte, de ser desviada da corrente de vícios em que ia apodrecendo mortalmente” (Conf., VIII, 7). Depois de discutir com Alípio sobre o que ouviram Agostinho, perturbado, retirou-se para os jardins de sua casa a fim de meditar: “Para lá me levara o tumulto do meu peito, onde ninguém era capaz de evitar a ardente luta que eu travara comigo [...]. Eu rangia em espírito, irando-me com turbulentíssima indignação, por não poder seguir Vosso agrado e aliança...” (Conf., VIII, 8).
A luta interior se agravou quando, de repente, Agostinho caiu em choro e, em meio às suas lágrimas, se interrogou: “Por quanto tempo andarei a clamar: Amanhã, amanhã? Por que não há de ser agora? Porque o termo das minhas torpezas não de vir nesta hora? [...] Assim falava e chorava, oprimido pela mais amarga dor do coração. Eis que, de súbito, ouço a voz da casa próxima. Não sei se era de menino, se de menina. Cantava e repetia frequentes vezes? ‘Toma e lê; toma e lê’” (Conf., VIII, 12).
Surpreendido, Agostinho lembrou-se da narrativa de Ponticiano acerca do momento em que Santo Antão recebeu um sinal de Deus e interpretou sua existência como um chamado de Deus para ler a Bíblia. Daí correu ao encontro de Alípio que lhe entregou o Novo Testamento e este abriu-o espontaneamente e leu o que lhe veio aos olhos, caindo sobre a Epístola de São Paulo (Rm 13.13) que dizia: “Não caminheis em glutonarias e embriaguez, nem em desonestidades e dissoluções, nem em contendas e rixas; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis a satisfação da carne com seus apetites”. “Não quis ler mais, nem era necessário. Apenas acabei de ler estas frases, penetrou-me no coração uma espécie de luz serena, e todas as trevas da minha dúvida fugiram” (Conf., VIII 12).
Agostinho mostrou a passagem a Alípio, e, juntos discutiram a experiência; em seguida, foram ao encontro de Mônica contar o ocorrido: estava decidido a ser católico, queria batizar-se.
Convertido, Agostinho desistiu da ideia de casar-se e pediu demissão de seu cargo de rector. Um de seus amigos, Verecundo, colocou à sua disposição uma casa de campo, num lugar chamado Cassicíaco, perto de Milão, para onde se retirou com os amigos, seu filho Adeodato e sua mãe Mônica. Ali iriam preparar-se para o batismo, sob as orientações de Ambrósio. Das circunstancias desse retiro nasceram as suas primeiras obras: Contra os acadêmicos (386), Sobre a vida feliz (386), Sobre a ordem (386) e Solilóquios (387), que ficariam conhecidas por “Diálogos filosóficos de Cassicíaco” ou “Da Juventude”.
Em 387, Agostinho e seu filho Adeodato voltaram a Milão para receberem o batismo. No Sábado Santo (25 de Abril de 387), foram batizados pelo Bispo Ambrósio.
Batizado, sua grande meta seria retornar à terra natal, onde pretendia dedicar-se à vida monástica. Ainda em 387, iniciou o caminho rumo a Tagaste, mas, em passagem pelo Porto de Roma (em Óstia), sua mãe faleceu, com 56 anos de idade. Em 388, chegou à África. Ali, seguindo o preceito evangélico da pobreza, estabeleceu uma espécie de mosteiro, vivendo em companhia de seus amigos. Daquela primeira comunidade nascia o ideal de vida monástica do Ocidente.
De sua experiência de vida comunitária nasceriam as famosas Regras, um ideal de vida monástica que tinha como máxima: “A medida para amar a Deus é amá-lo sem medida” (Reg., 34, 4,7) que seria seguida pelos mosteiros agostinianos, e que influenciaria grande parte das ordens e congregações religiosas espalhadas pelo mundo até hoje.
Agostinho insistia em dizer que não queria ser sacerdote, mas o que ele menos queria aconteceu. Em sua visita a Hipona, ao adentrar na cátedra, em um momento de assembleia, vendo Agostinho se aproximar, o Bispo Valério começou a explicar ao povo seu desejo de encontrar alguém – que o ajudasse a combater as heresias. Agostinho avançava pela Catedral quando, subitamente, uma multidão de fiéis, que gritavam em coro: Agostinho! Agostinho! Arrastou-o forçosamente e o conduziu até o bispo.
No dia seguinte, foi recebido por Valério. Queria confessar-lhe as suas hesitações em ser sacerdote, mas, como era da vontade de Deus, aceitaria. E depois de alguns meses de preparação espiritual, aos 37 anos de idade, Agostinho foi ordenado sacerdote pelas mãos do Bispo Valério.
Diante do prestígio de Agostinho, não só na região, mas em toda África, temendo que a qualquer momento estes fosse chamado (raptado) a servir em outros lugares, o Bispo Valério escreveu ao Primaz da África, pedindo-lhe que o ordenasse bispo-auxiliar de sua diocese. Agostinho tentou fugir mais uma vez de tal compromisso, mas, diante da insistência de Valério, em 395, foi sagrado bispo pelas mãos de Magálio. Um ano depois, com o falecimento de Valério, Agostinho ficaria como bispo-titular de Hipona, onde permaneceu por 36 anos.
Além de intelectual, preocupado com as grandes questões doutrinárias de seu tempo, Agostinho era um bispo popular, que convivia com seu povo, que conhecia as suas ansiedades, sofrimentos e alegrias. Basta vermos as centenas de Cartas e Sermões dirigidos aos seus diocesanos e amigos de outras regiões. Além disso, participava ativamente da vida político-social de sua época, interferindo, reivindicando e intercedendo junto às autoridades por seu rebanho.
Em 410, Agostinho acompanhou atentamente os acontecimentos acerca do saque de Roma por Alarico. Diante das acusações dos romanos de que a debilidade do Império estaria na sua adesão ao cristianismo, Marcelino, tribuno romano, pediu a Agostinho desse uma resposta a tais acusações, e ele escreveu a obra Sobre a Cidade de Deus, em defesa dos cristãos, que ao lado das Confissões, do Comentário aos Salmos e do tratado Sobre a Trindade, forma o conjunto das obras mais importantes de Agostinho.
No final de sua vida iniciaria outra importante obra, Retractationum (Retratações), como um olhar retrospectivo de todas as suas obras anteriores, mas que ficaria inacabada.

Agostinho faleceu no dia 28 de agosto de 430. Seu corpo foi enterrado na Basilica Pacis (Basílica da Paz) de Hipona onde, por 36 anos, ressoou a voz daquele que, para sempre, seria o “Bispo de Hipona”. Mais tarde, seus restos mortais foram levados para Sardenha, na Itália, depois, na época das invasões dos vândalos, foram transferidos para a Catedral de Pavia, onde permanecem até hoje.

terça-feira, 9 de abril de 2013

João Ferreira de Almeida: A Obra de uma Vida!


João Ferreira de Almeida, conhecido pela autoria de uma das mais lidas traduções da Bíblia em português, ele teve uma vida movimentada e morreu sem terminar a tarefa que abraçou ainda muito jovem. Entre a grande maioria dos evangélicos do Brasil, o nome de João Ferreira de Almeida está intimamente ligado às Escrituras Sagradas. Afinal, é ele o autor (ainda que não o único) da tradução da Bíblia mais usada e apreciada pelos protestantes brasileiros. Disponível aqui em duas versões publicadas pela Sociedade Bíblica do Brasil - a Edição Revista e Corrigida e a Edição Revista e Atualizada - a tradução de Almeida é a preferida de mais de 60% dos leitores evangélicos das Escrituras no País, segundo pesquisa promovida por A Bíblia no Brasil.

Se a obra é largamente conhecida, o mesmo não se pode dizer a respeito do autor. Pouco, ou quase nada, se tem falado a respeito deste português da cidade de Torres de Tavares, que morreu há 300 anos na Batávia (atual ilha de Java, Indonésia). O que se conhece hoje da vida de Almeida está registrado na "Dedicatória" de um de seus livros e nas atas dos presbitérios de Igrejas Reformadas do Sudeste da Ásia, para as quais trabalhou como pastor, missionário e tradutor, durante a segunda metade do século XVII.

De acordo com esses registros, em 1642, aos 14 anos, João Ferreira de Almeida teria deixado Portugal para viver em Málaca (Malásia). Ele havia ingressado no protestantismo, vindo do catolicismo, e transferia-se com o objetivo de trabalhar na Igreja Reformada Holandesa local. Dois anos depois, começou a traduzir para o português, por iniciativa própria, parte dos Evangelhos e das Cartas do Novo Testamento em espanhol. Além da Versão Espanhola, Almeida usou como fontes nessa tradução as Versões Latina (de Beza), Francesa e Italiana - todas elas traduzidas do grego e do hebraico. Terminada em 1645, essa tradução de Almeida não foi publicada. Mas o tradutor fez cópias à mão do trabalho, as quais foram mandadas para as congregações de Málaca, Batávia e Ceilão (hoje Sri Lanka). Mais tarde, Almeida tornou-se membro do Presbitério de Málaca, depois de escolhido como capelão e diácono daquela congregação.

No tempo de Almeida, um tradutor para a língua portuguesa era muito útil para as igrejas daquela região. Além de o português ser o idioma comumente usado nas congregações, era o mais falado em muitas partes da Índia e do Sudeste da Ásia. Acredita-se, no entanto, que o português empregado por Almeida tanto em pregações como na tradução da Bíblia fosse bastante erudito e, portanto, difícil de entender para a maioria da população. Essa impressão é reforçada por uma declaração dada por ele na Batávia, quando se propôs a traduzir alguns sermões, segundo palavras, "para a língua portuguesa adulterada, conhecida desta congregação."

O tradutor permaneceu em Málaca até 1651, quando se transferiu para o Presbitério da Batávia, na cidade de Djacarta. Lá, foi aceito mais uma vez como capelão, começou a estudar teologia e, durante os três anos seguintes, trabalhou na revisão da tradução das partes do Novo Testamento feita anteriormente. Depois de passar por um exame preparatório e de ter sido aceito como candidato ao pastorado, Almeida acumulou novas tarefas: dava aulas de português a pastores, traduzia livros e ensinava catecismo a professores de escolas primárias. Em 1656, ordenado pastor, foi indicado para o Presbitério do Ceilão, para onde seguiu com um colega, chamado Baldaeus.

Ao que tudo indica, esse foi o período mais agitado da vida do tradutor. Durante o pastorado em Galle (Sul do Ceilão), Almeida assumiu uma posição tão forte contra o que ele chamava de "superstições papistas," que o governo local resolveu apresentar uma queixa a seu respeito ao governo de Batávia (provavelmente por volta de 1657). Entre 1658 e 1661, época em que foi pastor em Colombo, ele voltou a enfrentar problemas com o governo, o qual tentou, sem sucesso, impedi-lo de pregar em português. O motivo dessa medida não é conhecido, mas supõe-se que estivesse novamente relacionado com as idéias fortemente anti-católicas do tradutor.

A passagem de Almeida por Tuticorin (Sul da Índia), onde foi pastor por cerca de um ano, também parece não ter sido das mais tranqüilas. Tribos da região negaram-se a ser batizadas ou ter seus casamentos abençoados por ele. De acordo com seu amigo Baldaeus, o fato aconteceu porque a Inquisição havia ordenado que um retrato de Almeida fosse queimado numa praça pública em Goa.

Foi também durante a estada no Ceilão que, provavelmente, o tradutor conheceu sua mulher e casou -se. Vinda do catolicismo romano para o protestantismo, como ele, chamava-se Lucretia Valcoa de Lemmes (ou Lucrecia de Lamos). Um acontecimento curioso marcou o começo de vida do casal: numa viagem através do Ceilão, Almeida e Dona Lucretia foram atacados por um elefante e escaparam por pouco da morte. Mais tarde, a família completou-se, com o nascimento de um menino e de uma menina.

A partir de 1663 (dos 35 anos de idade em diante, portanto), Almeida trabalhou na congregação de fala portuguesa da Batávia, onde ficou até o final da vida. Nesta nova fase, teve uma intensa atividade como pastor. Os registros a esse respeito mostram muito de suas idéias e personalidade. Entre outras coisas, Almeida conseguiu convencer o presbitério de que a congregação que dirigia deveria ter a sua própria cerimônia da Ceia do Senhor. Em outras ocasiões, propôs que os pobres que recebessem ajuda em dinheiro da igreja tivessem a obrigação de freqüentá-la e de ir às aulas de catecismo. Também se ofereceu para visitar os escravos da Companhia das Índias nos bairros em que moravam, para lhes dar aulas de religião - sugestão que não foi aceita pelo presbitério - e, com muita freqüência, alertava a congregação a respeito das "influências papistas."

Ao mesmo tempo, retomou o trabalho de tradução da Bíblia, iniciado na juventude. Foi somente então que passou a dominar a língua holandesa e a estudar grego e hebraico. Em 1676, Almeida comunicou ao presbitério que o Novo Testamento estava pronto. Aí começou a batalha do tradutor para ver o texto publicado - ele sabia que o presbitério não recomendaria a impressão do trabalho sem que fosse aprovado por revisores indicados pelo próprio presbitério. E também que, sem essa recomendação, não conseguiria outras permissões indispensáveis para que o fato se concretizasse: a do Governo da Batávia e a da Companhia das Índias Orientais, na Holanda.

Escolhidos os revisores, o trabalho começou e foi sendo desenvolvido vagarosamente. Quatro anos depois, irritado com a demora, Almeida resolveu não esperar mais - mandou o manuscrito para a Holanda por conta própria, para ser impresso lá. Mas o presbitério conseguiu parar o processo, e a impressão foi interrompida. Passados alguns meses, depois de algumas discussões e brigas, quando o tradutor parecia estar quase desistindo de apressar a publicação de seu texto, cartas vindas da Holanda trouxeram a notícia de que o manuscrito havia sido revisado e estava sendo impresso naquele país.

Em 1681, a primeira edição do Novo Testamento de Almeida finalmente saiu da
gráfica. Um ano depois, ela chegou à Batávia, mas apresentava erros de tradução e revisão. O fato foi comunicado às autoridades da Holanda e todos os exemplares que ainda não haviam saído de lá foram destruídos, por ordem da Companhia
das Índias Orientais. As autoridades Holandesas determinaram que se fizesse o mesmo com os volumes que já estavam na Batávia. Pediram também que se começasse, o mais rápido possível, uma nova e cuidadosa revisão do texto.

Apesar das ordens recebidas da Holanda, nem todos os exemplares recebidos na Batávia foram destruídos. Alguns deles foram corrigidos à mão e enviados às congregações da região (um desses volumes pode ser visto hoje no Museu Britânico, em Londres). O trabalho de revisão e correção do Novo Testamento foi iniciado e demorou dez longos anos para ser terminado. Somente após a morte de Almeida, em 1693, é que essa segunda versão foi impressa, na própria Batávia, e distribuída.

Enquanto progredia a revisão do Novo Testamento, Almeida começou a trabalhar com o Antigo Testamento. Em 1683, ele completou a tradução do Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento). Iniciou-se, então, a revisão desse texto, e a situação que havia acontecido na época da revisão do Novo Testamento, com muita demora e discussão, acabou se repetindo. Já com a saúde prejudicada - pelo menos desde 1670, segundo os registros—, Almeida teve sua carga de trabalho na congregação diminuída e pôde dedicar mais tempo à tradução. Mesmo assim, não conseguiu acabar a obra à qual havia dedicado a vida inteira. Em 1691, no mês de outubro, Almeida morreu. Nessa ocasião, ele havia chegado até Ez 48.21. A tradução do Antigo Testamento foi completada em 1694 por Jacobus op den Akker, pastor holandês. Depois de passar por muitas mudanças, ela foi impressa na Batávia, em dois volumes: o primeiro em 1748 e o segundo, em 1753.
A Bíblia no Brasil, n. 160, 1992, p. 14
Fonte: BOL- Bíblia on-line /SBB

Ário: a figura central e polêmica do Cristianismo


Ário (ou Arius) é uma figura central e polêmica do cristianismo na virada do século III para o IV depois de Cristo. Não se sabe exatamente a data nem o local em que esse sacerdote norte-africano nasceu. Especula-se que possa ter nascido na Líbia entre o ano 250 e 260 d. C. e há uma pequena evidência de que tenha sido aluno de Luciano de Antioquia (c.235-312), através do qual teria recebido influências da teologia de Paulo de Samosata (c. 200-275). Essa evidência é a palavrasulloukianista (“discípulo de Loukiano”) que aparece numa carta de Ário se referindo a si mesmo ao se dirigir a Eusébio de Nicomédia em busca de apoio nos primeiros anos da controvérsia que levaria seu nome. Aqui é necessário fazer algumas paradas para tentar entender essas influências, alertando desde já que resta pouca coisa de Paulo de Samosata para fazer um juízo de valor conclusivo sobre ele. Luciano de Antioquia é outro personagem controverso não tanto por suas ideias, mas porque aparentemente havia dois Lucianos de Antioquia com opiniões contrárias que se sobrepuseram (e cuja distinção se perdeu) na história, além de ser também conhecido como Luciano de Samosata (onde nasceu), que tinha um homônimo pagão do século II a. C., o que também gera confusão. Ao que tudo indica, Paulo de Samosata cria que Jesus tinha nascido humano e – de alguma maneira transcendental – Deus Pai tinha, digamos, “infundido” divindade nEle durante sua existência carnal, numa versão muito particular de adocionismo, que era uma tentativa humana, marginal na Igreja, de se explicar a presença e a correlação entre as naturezas humana e divina de Jesus Cristo, e que não foi aceita pela ampla maioria ortodoxa do cristianismo que considerava a doutrina tão estapafúrdia que nem se deu ao trabalho de refutá-la de maneira séria e fundamentada. Foi com esse tipo de inspiração que Ário foi educado nas sagradas letras, e isso acabou por determinar toda a sua vida eclesiástica.
Engana-se quem imagina que esta era uma época de paz e de flores na nascente Igreja Cristã. Os seus quatro primeiros séculos foram extremamente conturbados, com ideias fortes e contraditórias se chocando com frequência, o que gerou um ambiente às vezes muito mais mundano do que se poderia esperar, como ressalta Paul Johnson:

Por via de regra, porém, os que contendiam com o que viria a ser mais tarde ou já era a tradição ortodoxa foram enterrados sob uma montanha de linguagem chula eclesiástica. O odium theologicum não foi uma invenção cristã. Fazia parte da herança judaica, junto com o conceito de heresia e o anátema. Como vimos, o tom brando e irenista dos Atos, retratando a Igreja primitiva como um colegiado de senadores imparciais, movendo-se pacificamente no sentido de decisões coletivas, desvirtua a realidade que encontramos em Paulo. Palavras ásperas entre os irmãos em Cristo surgiram cedo, e a partir de então verificou-se uma inflação contínua da troca de ofensas. No século II, o debate com os hereges redundava em polêmica, e a magnitude das acusações ortodoxas e a grosseria de suas ofensas eram, de modo geral, proporcionais ao sucesso do movimento. Com o recrudescimento da controvérsia, fazia-se necessário atacar a conduta, não só a doutrina, dos divergentes. Com efeito, logo desenvolveu-se a teoria de que o erro doutrinário inevitavelmente conduzia à deterioração moral. Assim, os polemistas ortodoxos podiam inventar e acreditar nas acusações de boa-fé. As autoridades montanistas foram acusadas de glutonaria e avareza apenas por receber salários. O ortodoxo Apolônio acusou Alexandre, discípulo de Montano, de praticar assaltos nas estradas; organizava festins repugnantes com a profetisa Priscila, e ela era cobiçosa. A acusação prossegue: “um verdadeiro profeta usa maquilagem? Empresta dinheiro a juros?”. O que era prática costumeira entre todos os cristãos – chamar as viúvas de virgens, o pagamento de sacerdotes, o uso de dinheiro para tirar os irmãos perseguidos das prisões estatais – era, nas seitas heréticas, descrito como ruim. As seitas que atraíam os maiores volumes de seguidores eram, por via de regra, as mais austeras e tementes a Deus; contudo, sendo as mais bem-sucedidas, tinham de ser alvos das mais acres investidas de base moral.[1]
Esse período também foi muito rico para a igreja porque o cristianismo finalmente passava a se massificar, absorvendo não somente a população do Império Romano, mas principalmente as mais altas esferas do poder político, o que , se de um lado livrou-o paulatinamente da perseguição, por outro lhe trouxe novos desafios, como lembra Justo L. González:
Estas novas condições tiveram também suas consequências negativas. Em primeiro lugar, logo começou uma conversão em massa que inevitavelmente depreciou a profunda convicção e a vida moral da igreja. Em segundo lugar, a proteção imperial tornou mais fácil aos poderosos se unirem à igreja e procurarem manter e exercer seu poder dentro da comunidade da fé. Finalmente, a mesma proteção que deu aos cristãos a possibilidade de desenvolverem sua teologia a um ponto que anteriormente era impossível, também implicou na possibilidade de condenação ou privilégio imperial a uma ou a outra posição teológica. Isto, por sua vez, deu às controvérsias teológicas uma dimensão política que elas não tinham anteriormente. É exatamente isso que se passou na controvérsia ariana.[2]
Foi nesta atmosfera conflagrada por oxigênio puro e gases teológicos tóxicos que Ário formou as suas convicções sobre o cristianismo. Não só ele, diga-se de passagem, mas a igreja como um todo. A nova religião cristã via o nascimento do dogma:
A palavra “dogma” vem, através do latim, da palavra dogma, que derivou do verbo dokeo. Essa palavra significa pensar. Os dogmas ou doutrinas formuladas nesse período foram o resultado de pensamento e pesquisa demorados por parte dos cristãos no afã de interpretarem corretamente o significado da Bíblia nas questões disputadas e de evitar as opiniões errôneas.
O período é ainda uma boa ilustração de como um forte zelo pela doutrina pode levar uma pessoa ou uma igreja involuntariamente ao erro, se não se fizer um estudo equilibrado da Bíblia. Assim como Sabélio chegou a negar a Trindade essencial ao tentar salvaguardar a unidade de Deus, Ário descambou para uma interpretação antibíblica do relacionamento de Cristo com o Pai em sua tentativa de evitar aquilo que ele considerava o perigo do politeísmo.
Pode-se indagar por que a controvérsia sobre problemas teológicos ocorreu tão tarde na história da Igreja antiga; o fato é que, nos tempos da perseguição, a submissão a Cristo e à Bíblia era mais importante do que o significado de certas doutrinas. A ameaça do Estado levou a Igreja à unidade interna a fim de se apresentar coesa na luta. Desse modo, então, a tentativa de Constantino de unificar o Império para salvar a civilização clássica significou que a Igreja precisaria ter um corpo unificado de doutrinas se quisesse ser o cimento capaz de manter unido o corpo político. Um Império precisa de um dogma.[3]
A vitória de Constantino sobre Maxêncio em Ponte Mílvio, no dia 28 de outubro de 312, foi o coroamento de um período em que a Igreja Cristã avançava a passos largos por todo o Império e já encontrava, salvo perseguições localizadas e sazonais (como se verá a seguir), relativa calma. Era, entretanto, “uma religião rejeitada por 9 décimos de seus súditos”[4], o que contradiz as teses modernas de conspiração, que – ao se esquecer do anacronismo de suas análises – querem ver na conversão de Constantino uma frieza e um calculismo políticos que ele definitivamente não teve. Mais tarde, o caminho de Constantino se cruzará várias vezes com o de Ário, mas por enquanto o vemos como provável discípulo de Luciano de Antioquia, que já estará sob a liderança de Pedro de Alexandria no período em que ele dirigiu a sede patriarcal egípcia, entre 300 e 311, quando foi decapitado pela repressão de Diocleciano. Naquela época, Pedro estava preso juntamente com vários outros líderes durante a última perseguição no Egito, que durou de 303 a 312, e Melício de Licópolis aproveitou a ausência do patriarca para rejeitar toda e qualquer reconciliação de cristãos – salvo por rebatismo - que haviam negado a fé diante da tortura e ameaça de morte, bem como tratou de nomear e ordenar novos bispos para as sedes vacantes de cada igreja sob a jurisdição de Alexandria, gerando um cisma na igreja. A princípio, Ário estava do lado de Melício, mas, nesse ínterim, Pedro foi libertado do cárcere e, antes de ser preso novamente e martirizado, tomou duras providências contra os cismáticos, que – excomungados - se reuniram no movimento sectário conhecido por melicianismo, que continuou forte até seus embates com Atanásio, o outro grande líder de Alexandria, e – curiosamente – o sucessor de Alexandre, que seria o maior inimigo de Ário alguns anos depois, mas que - naquele momento específico do cisma meliciano – não se pode dizer com certeza se Ário já havia retornado ao seio da ortodoxia altaneira (e mártir) de Pedro. Tudo indica que isso aconteceu sob o episcopado de Áquila, sucessor de Pedro, que governou a igreja de Alexandria por um curto período entre 311 e 312, período em que, segundo as fontes mais confiáveis (mas sem absoluta certeza), Áquila teria ordenado Ário ao sacerdócio, razão pela qual foi tido muitas vezes (e com pouca dose de razão) como um ariano precoce. Antes de falecer em 312, Áquila havia convocado um concílio para 313, exatamente com o fim de resolver as pendências teológicas que lhe eram confrontadas de um lado por Melício (ainda vivo e forte), e de outro lado por Ário. São misteriosas, portanto, as razões pelas quais Áquila ordenou sacerdote uma pessoa que, uma vez investida do cargo, começaria imediatamente a lhe criar problemas, daí as dúvidas que pairam até hoje sobre suas reais intenções, se arianas ou não. Como facilmente se percebe, essa não era uma época propícia a grandes discussões teológicas e filosóficas, mas Ário já estava prestes a se tornar conhecido como o maior herege da história da Igreja primitiva:
O vilão da história (para utilizar a linguagem da ortodoxia) era o arqui-herege Ário, mas, antes de explicar sua teologia, deve-se dar um rápido esboço das teorias acerca da posição da Palavra na Divindade aceitas nas primeiras décadas do quarto século. Precisamos praticamente restringir-nos ao segmento da igreja que usava a língua grega. São escassos, ou mesmo inexistentes, os dados que mostram o que teólogos ocidentais pensavam na época, embora seja seguro conjecturar que, tal como o papa Dionísio algumas gerações antes, eles estavam ocupados principalmente com a unidade divina e consideravam misteriosas as distinções dentro da Divindade. Existem mais informações quanto ao Oriente, onde Orígenes continuava sendo a influência dominante. No que diz respeito à Palavra [ao Logos], parece que estavam em voga dois tipos de origenismo, um cauteloso e moderado e outro mais radical. Como expoente do primeiro, podemos citar Alexandre, bispo de Alexandria entre 313 e 328, que devia ter a responsabilidade de disciplinar Ário. Um expoente típico da postura mais radical é Eusébio de Cesareia, o historiador da igreja, cujas opiniões, pelo menos em sua forma mais moderada, refletiam a atitude de grande número de clérigos orientais.[5]
Depois da controvérsia meliciana, da morte de Pedro e Áquila, e da ascensão de Alexandre à sede patriarcal de Alexandria, Ário continua no seu ofício de sacerdote, sem que se saiba exatamente em que condição. Por volta do ano 320, Ário era o pastor da igreja de Baukalis (ou Baucale), uma igreja importante em Alexandria, na qual era muito respeitado e já vinha desenvolvendo havia alguns anos as suas teorias exóticas sobre a Encarnação do Verbo. De acordo com fontes posteriores não tão confiáveis, haveria uma espécie de convento anexo à igreja, com cerca de 70 freiras, mas esse é um dado digno de nota mais pela curiosidade e pela sugestão implícita de maldade, já que também o descrevia como um homem alto e esguio, que gostava de se vestir bem, vaidoso portanto, um dândi de Alexandria segundo a tradição posterior que não fez esforço algum em evitar que ele fosse ridicularizado e difamado (talvez com razão). De qualquer maneira, Ário se torna um presbítero popular em Alexandria, seja pela sua jovialidade, seja pela pregação de suas ideias revolucionárias. Importante frisar que a base da controvérsia que se seguiu estava fundada na doutrina da Trindade estabelecida por Orígenes (185-253), também em Alexandria, pela qual ele declarou que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, ainda numa formulação incipiente, mas profundamente importante, da relação entre as Três Pessoas da Unidade Divina, que seria mais tarde aperfeiçoada por Tertuliano e pelos pais capadócios, entre tantos outros que colaboraram nesse processo. Para Orígenes, o Filho é co-eterno e tão divino quanto o Pai, divino “conforme a essência” e não “por meio de participação” nem por “emanação” de Um em relação ao Outro[6]. Nesta visão, o Espírito Santo procede do Pai e é co-eterno e tão divino quanto Pai e Filho[7]. Alexandre, então patriarca de Alexandria, era um origenista radical e Ário não se conformava com essa ideia, conforme demonstra Justo L. González:
Por um lado, é dito que Ário pertencia à linha de sucessão daqueles origenistas que colaboraram na condenação de Paulo de Samosata. De acordo com esta interpretação, o ponto de partida do arianismo é um monoteísmo absoluto, de modo que o Filho não pode ser uma emanação do Pai, ou uma parte de sua substância, ou um outro ser semelhante ao Pai, pois qualquer dessas possibilidades ou negaria a unidade ou a natureza imaterial de Deus. O Filho não pode existir sem um começo, pois dessa forma seria um “irmão” do Pai, e não um Filho. Por isso, o Filho tem um começo, e foi criado ou feito pelo Pai do nada. Antes de tal criação, o Filho não existia; é, portanto, incorreto afirmar que Deus é eternamente Pai. Isso não significa, contudo, que não existiu sempre um Verbo em Deus, uma razão imanente; mas este Verbo ou razão de Deus é diferente do Filho, que foi criado mais tarde. Portanto, quando alguém diz que o Filho é a Sabedoria ou o Verbo de Deus, isto está correto apenas com base na distinção entre o Verbo que sempre existiu, como a razão de Deus, e aquele outro Verbo que é “o primogênito de toda a criatura”. Embora todas as coisas tenham sido criadas por ele, ele próprio foi feito pelo Pai e é, portanto, uma criatura, e não Deus no sentido estrito da palavra.
Uma outra interpretação vê Ário e seus seguidores como defensores de um conceito de salvação que, na opinião deles, estava sendo ameaçado por Alexandre e seus colaboradores. De acordo com esta interpretação, Ário e seus “companheiros lucianistas” estavam preocupados em enfatizar a verdadeira humanidade de Jesus. Sua divindade deveria ser expressa, não em termos de substância, mas em termos de vontade – isto é, em termos suscetíveis de imitação e repetição pelos fiéis. A partir dessa perspectiva, a principal preocupação de Ário era explicar o salvador em termos tais que o tornassem possível de ser imitado. Para Ário, era importante que a filiação de Cristo fosse por adoção, de modo que pudéssemos segui-lo e, assim, fôssemos igualmente adotados. Assim, “o modelo central ariano foi o de uma criatura perfeita, cuja natureza permanecesse sempre humana e cuja posição estivesse sempre subordinada e dependente da vontade do Pai”. Embora seja muito difícil aplicar esta interpretação ao arianismo de tempos posteriores, parece que na essência do arianismo primitivo está a mesma preocupação de salvaguardar a humanidade do salvador que foi anteriormente manifestada por Paulo de Samosata. Isto também explicaria porque desde os tempos mais antigos o arianismo foi interpretado como a continuação dos ensinos e preocupações de Paulo de Samosata. Além disso, se interpretarmos o arianismo primitivo não como uma especulação sobre a Divindade, mas antes como sendo proveniente de um entendimento particular da obra de Cristo, podemos começar a entender o apelo que o arianismo teve sobre as massas em Alexandria – apelo normalmente explicado como resultante meramente da popularidade pessoal de Ário.[8]
Tudo isso implicava em pelo menos 4 pontos essenciais para se compreender as doutrinas do arianismo: 1) Deus Pai é absolutamente único e transcendente, do qual não emana (ou se comunica) divindade alguma; 2) na condição de criatura, o Filho deve obrigatoriamente ter tido um começo; 3) o Filho não pode ter comunhão alguma de substância com o Pai; e 4) o Filho deve estar sujeito a mudanças e mesmo ao pecado[9]. Um dos partidários de Ário teria sido, inclusive, surpreendido numa conferência quando lhe perguntaram se Jesus poderia ter caído junto com o diabo, o que ele foi obrigado a concordar, já que essa era uma consequência lógica do ensino de Ário. Ficam claras, portanto, as razões pelas quais Alexandre não podia tolerar um desafio desse tipo dentro de suas fileiras alexandrinas. Ário tinha, contudo, um poder de sedução enorme sobre as plateias ignaras e isto gerou profunda comoção em Alexandria, em que a polêmica, guardadas as devidas proporções, tomou o vulto de uma briga de torcidas. Ário liderava passeatas pela cidade cantando “Houve um tempo quando ele não era”, referindo-se a Jesus, o Verbo encarnado. Diante da provocação, Alexandre convocou um sínodo de bispos do Egito, que se realizou no ano de 319 (ou 320, segundo outras versões) e ao qual acorreram 100 prelados da região, que resultou na condenação e excomunhão de Ário. Este, entretanto, não desistiu. Buscou apoio em bispos de outras regiões, e o influente Eusébio de Nicomédia foi o que lhe deu abrigo. O outro Eusébio, o historiador de Cesareia, também lhe deu certo suporte, mas se colocava numa opinião intermediária entre Ário e Alexandre, embora sem desenvolvê-la a ponto de que soubéssemos hoje exatamente o que ele pensava a respeito.
Constantino já era o imperador romano inconteste desde o ano 312, e não podia tolerar que o amálgama do seu vasto império, que era o cristianismo, tivesse sua solidez ameaçada. Ele envia, então, Ósio de Córdoba à região na tentativa de mediar a crise, com uma carta pessoal sua endereçada aos dois principais contendores, em que diz que considerava aquilo “uma inútil disputa entre teólogos”[10], mas que não consegue fazê-los chegar a um acordo satisfatório a todas as partes envolvidas. Diante do impasse, não há outra solução senão convocar o concílio ecumênico de Niceia, que se realizaria no ano 325 e no qual estariam representados todos os bispos da cristandade, para se dirimir finalmente a questão. Agendado o concílio, começa então uma verdadeira guerra diplomática (para os padrões da época) dentro da Igreja. O próprio Ósio, entretanto, participaria de um concílio local em Antioquia pouco tempo antes de Niceia, no qual seriam condenados Eusébio de Cesareia e outros partidários de Ário. Este, na tentativa de se mostrar humilde e conciliador (o que aparentemente não correspondia à imagem pública que ele passava), tratou de enviar uma carta a seu arqui-inimigo Alexandre de Alexandria, um dos poucos escritos de Ário que sobreviveram, com os seguintes dizeres:
A fé que recebemos de nossos antepassados e que aprendemos de ti, bem-aventurado pai, é esta: conhecemos um Deus único não gerado, o único eterno, o único sem princípio, o único verdadeiro, imortal, o único sábio, o único bom, o único onipotente, o único juiz, moderador e governador de todas as coisas, imutável e sem transformação..., que gerou antes dos tempos eternos o seu filho único, por meio do qual ele fez os séculos e todas as coisas. (Filho) gerado não em aparência, mas em verdade, subsistente por efeito de sua vontade, imutável e sem transformação, criatura perfeita de Deus, mas não como uma das criaturas; criado, mas não como uma das coisas criadas...
Contudo, como dizemos, ele foi criado com os tempos e antes dos séculos e recebeu do Pai a vida, o ser e os esplendores de glória. De fato, dando-lhe a herança de todas as coisas, o Pai não se privou do que tem em si mesmo, de ser sem princípio, porque ele é a origem de tudo.
Por isso é que há três substâncias: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Deus, que é justamente causa de todos os seres, é de maneira absoluta o único sem princípio. O Filho, gerado pelo Pai fora do tempo, criado e fundado antes dos séculos, não era antes de ser gerado, mas, gerado fora do tempo antes de todas as coisas, somente ele foi criado pelo Pai único. Ele não é eterno, nem coeterno e não partilha o fato de não ser gerado como e com o Pai. Ele não tem a existência com o Pai, como dizem alguns de um e de outro, afirmando dois princípios não gerados. Mas como unidade e princípio de tudo, Deus é antes de todas as coisas. Por isso ele também é antes de Cristo... Na medida, pois, em que seu ser, sua vida e sua glória, e tudo o que lhe foi conferido lhe vêm de Deus, Deus é o seu princípio. Ele lhe é superior como seu Deus e tem seu ser antes dele; ele o recebe de Deus.
(a partir da tradução de I. Ortiz de Urbina, Nicée et Constantinople, 1963, pp. 252-253)[11]
Alexandre, hábil estrategista como era e conhecedor dos meandros técnicos e políticos de um concílio, não deu importância à carta de Ário, pois sabia que a questão seria decidida pelos bispos que compareceriam a Niceia pouco tempo depois, e aproveitou para lhes enviar uma carta encíclica ao episcopado explicando a questão central da polêmica ariana:
Quem ouviu, alguma vez, semelhantes coisas? Quem, agora que as ouve, não tapará os ouvidos para impedir que essas ignóbeis palavras cheguem até eles? Quem, ouvindo João dizer: “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1), não condenará os que dizem “Houve um tempo em que ele não era”? Quem, ainda, ouvindo estas palavras do Evangelho “Filho único de Deus” (Jo 1,18) e “Tudo foi feito por meio dele” (Jo 1,3), não detestará os eu afirmam que o Filho é uma das criaturas? Como pode ele ser igual ao que foi feito por ele? Como pode ser Filho único aquele que elencamos com todas as coisas, na categoria destas?Como viria ele do nada, ao passo que o Pai diz: “De meu seio, antes da aurora, eu te gerei” (Sl 109,3)? Como seria ele, em sua substância, diferente do Pai, ele que é a imagem perfeita e o esplendor do Pai (2 Cor 4,4; Hb 1,3) e que diz: “Quem me vê vê o Pai” (Jo 14,9)? Se o Filho é o Verbo e a Sabedoria do Pai, como teria havido um tempo em que ele não existia? É como se dissessem que houve um tempo em que Deus não tinha Palavra nem Sabedoria. Como está sujeito à transformação e à alteração aquele que diz de si mesmo: “Eu estou no Pai, e o Pai está em mim” (Jo 10,38) e “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30), e que disse pelo profeta: “Vede-me; eu sou e não mudo” (Ml 3,6)? Mesmo que se pense que essa palavra pode ser dita pelo próprio Pai, seria agora, no entanto, mais oportuno, julgá-la dita por Cristo, porque, tornado homem, ele não muda, mas, como diz o Apóstolo, “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje e pela eternidade” (Hb 13,8). Quem os leva a dizer que é por nós que ele foi feito, enquanto São Paulo diz: “Para ele e por ele todas as coisas existem” (Hb 2,10)? Quanto à sua afirmação blasfema de que o Filho não conhece perfeitamente o Pai, não seria de causar surpresa, pois, uma vez que eles se decidiram a combater Cristo, desprezam também as palavras do próprio Senhor que diz: “Como o Pai me conhece, eu também conheço o Pai” (Jo 10,15).
(a partir da tradução de I. Ortiz de Urbina, Nicée et Constantinople, 1963, pp. 250-251)[12]
Não há estatísticas exatas sobre o número de bispos que afluíram a Niceia para o primeiro grande concílio ecumênico da Igreja Cristã, realizado entre os dias 20 de maio e 25 de agosto de 325. Estima-se entre 250 a pouco mais de 300 o número de participantes com direito a participação ativa e a voto nas deliberações. Silvestre I, bispo de Roma, foi um dos ausentes, mas mandou representantes. Isto se devia basicamente ao fato de que o cristianismo era majoritário no Oriente e ainda minoritário no Ocidente. Ário não era bispo e, portanto, não participava do conselho, e seu representante era seu protetor Eusébio de Nicomédia. No campo contrário, Alexandre de Alexandria se via em posição de fraqueza não tanto pela oposição dos arianos, mas porque poucos bispos sabiam exatamente da gravidade do que iria ser discutido no conclave. Todos, de certa maneira, já estavam preocupados em formular um dogma que, por descuido de palavras, favorecesse os sabelianistas, discípulos de Sabélio (falecido em 215 d.C.) que defendiam uma espécie de unitarismo, em que o Filho e o Espírito Santo seriam “modos” de manifestação de Deus, e não Pessoas co-substanciais com o Pai entre si, daí também ser chamado de “modalismo”. Os sabelianistas, por seu lado, provavelmente perceberam que a posição de Ário era muito mais grave e potencialmente já condenada, e trataram de não fazer alarde sobre suas próprias posições, a fim justamente de que pudessem depois distorcer o resultado do concílio a seu favor, o que por sinal terminou acontecendo. Havia, além disso, a presença do imperador em pessoa, mostrando a todos que era do seu mais profundo interesse uma solução pacífica o menos desagregadora possível. Não se sabe exatamente como é que as sessões de discussão se desenvolveram, mas tudo indica que Eusébio de Nicomédia tenha feito uma exposição inicial dos ensinos dele próprio e de seus “companheiros lucianistas” (um eufemismo para “arianos”) e aí ele foi muito mal ao advogar uma espécie de subordinação do Filho ao Pai, o que escandalizou a maioria dos bispos presentes. Logo de cara, a causa estava perdida por uma razão muito simples de entender: se o Filho não era tão Deus como o Pai, então não houvera sacrifício válido do Salvador, já que qualquer outra criatura poderia ter sido sacrificada no seu lugar, e isto era um pensamento em relação a Jesus extremamente ofensivo para a Igreja cristã. Toda a sua pregação de salvação em Cristo, a prevalecer essa ideia, cairia por terra. Alexandre havia sido muito melhor diplomata que seus oponentes. Correu uma versão, depois, de que o jovem Atanásio, então com 30 anos de idade, teria acompanhado seu preceptor Alexandre, tendo sido inclusive autorizado a falar durante a sessão, o que é difícil que seja verdade, já que somente os bispos tinham esse direito, mas certamente ele manobrou muito nos bastidores. A solução encontrada após longos debates foi estabelecer o Credo (que leva o nome do concílio) em que ficava claro que Jesus Cristo é “Filho de Deus, gerado do Pai, Unigênito, isto é, da substância do Pai, deus de Deus, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não-feito, de uma substância com o Pai, mediante o qual todas as coisas vieram a existir”. Curiosamente a palavra aqui traduzida por “substância” em “da substância do Pai” vem do grego homoousios (“consubstancial”) e foi sugerida pelo próprio Constantino. Quase todos os presentes assinaram o Credo de Niceia, com exceção de Ário e dois bispos líbios (uma das razões pelas quais se imagina que Ário também era líbio), que foram condenados e exilados na Ilíria. Eusébio de Nicomédia e Teógnis de Nicéia, que continuaram no erro após o concílio, depois foram depostos e exilados na Gália. Os livros de Ário foram queimados em razão dos anátemas proferidos na ocasião: “Os anátemas do concílio estendiam-se a todos aqueles que alegavam “que houve um tempo em que ele não existia”; “antes da Sua geração Ele não existia”; “Ele foi feito do nada”; “o Filho de Deus é de outra subsistência ou substância”; e “o Filho de Deus [é] criado ou alterável ou mutável”.”[13]
Como a redação do Credo de Niceia permitia que, além dos sabelianos, outros grupos como os de Eustáquio de Antioquia e de Marcelo de Ancira (hoje Ancara, capital da Turquia) se sentissem autorizados a fazerem interpretações muito particulares de seus tipos velados de monarquianismo, em que o Filho teria algum grau de subordinação ao Pai. Aos poucos, essas desavenças teóricas foram minando os resultados do Concílio de Niceia, e por volta do ano 328, Eusébio de Nicomédia e Teógnis de Niceia foram autorizados a voltarem do exílio. Eusébio tinha amigos próximos na família imperial, e fazia de tudo para influenciar a visão moderada de Constantino, que gostava muito de botar panos quentes nas controvérsias eclesiásticas e arranjar um meio de acomodar todas as correntes antagônicas (e no caso irreconciliáveis) no seio da Igreja. Os defensores do concílio predominaram por cerca de 5 anos após o seu término, afinal Roma, Alexandria e Antioquia eram presididas por fortes apoiadores de suas conclusões. Os arianos trataram, então, de se movimentarem politicamente e fizeram de tudo para mostrar ao imperador que não eram tão obstinados assim e queriam contemporizar. Existe a suposição, não confirmada, de que tenha havido um segundo sínodo em Niceia no ano 327, com muito menor afluência de bispos, que de alguma maneira teria reabilitado Ário, o que parece não corresponder à verdade dos fatos[14]. Ário escreveu uma carta ao imperador, dizendo-se pronto a aceitar um compromisso com a ortodoxia, subscrevendo o Credo de Niceia, fazendo com que Constantino fosse paulatinamente cedendo aos seus apelos com a ajuda, suspeita-se, de Constância, meia-irmã do imperador e viúva de Licínio, a quem Constantino tinha derrotado para unificar o Império no ano 325. Alexandre de Alexandria, entretanto, morre em 328, sendo sucedido por seu fiel discípulo Atanásio, que se tornou o maior defensor da fé nicena e um dos grandes pais da Igreja. Diante da insistência de Constantino em ver Ário reabilitado, Atanásio respondia que "é impossível reintegrar na Igreja homens que contradizem a verdade, fomentam a heresia, e contra os quais um concílio geral pronunciou o anátema". Por sua oposição sistemática a que Ário fosse reintegrado à igreja de Alexandria, Atanásio é perseguido pelo imperador e outros bispos arianos, caluniado, punido e exilado algumas vezes, como no sínodo de Tiro (em 335), presidido pelo bispo então eusebiano Flacilo de Antioquia (influenciado pelos dois Eusébios, o de Nicomédia e o de Cesareia), até que, em 17 de setembro de 335, o Sínodo de Jerusalém resolve restaurar Ário à comunhão, “em presença do imperador Constantino e dos dois Eusébios, depois dele haver apresentado uma profissão de fé satisfatória, e exigiu das igrejas de Alexandria e do Egito que dessem o cisma por encerrado”[15]. O imperador então determina que Ário reassuma suas funções com outro Alexandre, patriarca de Constantinopla. Este, contrariado, teria orado fortemente pedindo a Deus que Ário morresse antes que isso ocorresse. Sintomático que nesse episódio ainda se vê a mão de Alexandre de Alexandria, 7 anos após sua morte. É que ele - em vida - havia escrito uma carta ao seu homônimo de Constantinopla na qual fez uma refutação radical e profundamente convincente do arianismo. A reza na sede do Império deve ter sido braba, pois na véspera do dia em que isso aconteceria, Ário morre em condições misteriosas. Alguns historiadores ainda criaram versões míticas, tentando atribuir sua morte súbita a algum tipo de castigo divino, mas a causa mais provável, dado os costumes daquele tempo, é que ele tenha sido envenenado. Como descreve Edward Gibbon, Ário morreu em circunstâncias "horríveis e estranhas, o que despertou suspeitas de que os santos ortodoxos tinham contribuído de maneira mais eficaz do que com suas preces para livrar a Igreja do mais temível dos seus inimigos"[16]. Dois anos depois morreria Constantino. Terminava assim a carreira do maior heresiarca que a Igreja primitiva conheceu. Sem glória...


Notas
1. Paul Johnson, “História do Cristianismo”. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, pp. 66-67
2. Justo L. González, “Uma História do Pensamento Cristão”. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. Vol. I, p. 256
3. Earle E. Cairns, “O Cristianismo Através dos Séculos – Uma História da Igreja Cristã”. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 111
4. Paul Veyne, “Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão [312-394]”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, p. 108
5. J. N. D. Kelly, “Patrística – Origem e Desenvolvimento das Doutrinas Centrais da Fé Cristã”. São Paulo: Vida Nova, 2009, pp. 169-170
6. Justo L. González, op. cit., p. 212
7. Idem, op. cit., p. 214
8. Ibidem, op. cit., pp. 256-258
9. J. N. D. Kelly, op. cit., pp. 172-173
10. Giuseppe Alberigo (org.), “História dos Concílios Ecumênicos”. São Paulo: Paulus, 1995, p. 21
11. Jacques Liébaert, “Os Padres da Igreja [Séculos I – IV]”. São Paulo: Loyola, 2000, vol. 1, p. 138
12. Idem, op. cit., p. 139
13. Walter A. Elwell (org.), “Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã”. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 106
14. Hubertus R. Drobner, “Manual de Patrologia”, Petrópolis: Vozes, 2003, p. 219
15. Idem, op. cit., p. 219
16. "Declínio e Queda do Império Romano", ed. abreviada. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1989, p. 291

Orígenes: Vida e Obra


Graças a Eusébio de Cesaréia, em sua obra “História Eclesiástica”, Orígenes é o personagem da Igreja primitiva que mais legou escritos e dados biográficos à posteridade. Foi conhecido, à sua época, pelo apelido de Adamâncio (“o homem de aço”), o que, a título de curiosidade ou infeliz coincidência, nos remete ao “adamantium”, liga metálica fictícia que impregna as garras do popular Wolverine, da não menos popular série X-Men de nossos dias. Coincidência ou não, o fato é que Orígenes desempenhou, à sua maneira, o papel de uma espécie de super-herói da sua época, tais foram, por um lado a sua produção literária abundante, e, por outro, inúmeras viagens e algumas atitudes radicais.
Tudo indica que Orígenes tenha nascido em uma família cristã em Alexandria, por volta do ano 185, tendo recebido sólida formação religiosa (sob Clemente) e também secular, completada na escola do filósofo Amônio Sacas, pai do neoplatonismo, o que lhe permitiu ter uma erudição filosófica incomparável entre os Pais da Igreja. No ano 202, seu pai Leônidas foi martirizado durante a perseguição do imperador Sétimo Severo, e os bens da família foram confiscados. O jovem Orígenes incentivou seu pai a ser fiel até a morte e diz-se que sua mãe teve que esconder suas roupas para que ele não saísse de casa e fosse preso. Para poder manter a mãe e seis irmãos menores, Orígenes abriu uma escola de gramática (literatura) e, pouco depois, diante da ausência de quadros qualificados, já que muitos haviam fugido ou sido mortos pela perseguição, o bispo Demétrio de Alexandria incumbe a Orígenes, então com 18 anos de idade, a dirigir a escola de catecúmenos, enquanto procurava enfrentar a forte perseguição aos cristãos. Por algum tempo, seguiu com as duas escolas, mas quando a família teve condições de se sustentar por si própria, dedicou-se exclusivamente à catequese e, nesse particular, opera-se um verdadeiro milagre para a época: sua reputação entre os alexandrinos era tão alta que muitos pagãos e gnósticos passaram a freqüentar a escola de catecúmenos para aprender diretamente do jovem mestre.
Orígenes levava uma vida austera, rigorosa, a ponto de ser quase certo que, interpretando ao pé da letra Mateus 19:12, castrar-se a si mesmo e fazer-se eunuco para Deus, atitude extrema que o impediu de ser ordenado sacerdote por Demétrio. O historiador Paul Johnson (“História do Cristianismo”, Ed. Imago, 2001, pág. 75), qualificando-o de “fanático religioso”, relata que Orígenes “abriu mão de seu emprego e vendeu seus livros para concentrar-se na religião. Dormia no chão, não comia carne, não bebia vinho, tinha apenas um casaco e não possuía sapatos”. Já próximo dos 30 anos de idade, deixa a direção da escola com Héraclas e, seguido de alguns discípulos que ele próprio escolheu, aprofunda-se nos estudos bíblicos e filosóficos, passando a escrever sua vasta obra, incentivado por Ambrósio, um homem rico de Alexandria que, pela pregação de Orígenes, havia abandonado a heresia valentiniana convertendo-se à ortodoxia da Igreja. Ambrósio tinha uma profunda sede intelectual e, vendo em Orígenes as qualidades do pensamento que tanto prezava, passa a financiá-lo para que suas idéias sejam conhecidas de todos. Nesse período, Orígenes também viaja muito, visitando Roma, Cesaréia, Jordânia, chegando a ser levado com escolta militar a Antioquia, onde a mãe do imperador Alexandre Severo, Júlia Maméia, desejava conhecer melhor o cristianismo.
Orígenes adquire, então, o status de uma espécie de “celebridade mundial” da época, segundo relata Hans von Campenhausen (“Os Pais da Igreja”, Ed. CPAD, 2005, pág. 51): “o governador da Arábia solicitou ao seu colega egípcio e também escreveu ao bispo Demétrio uma carta amável pedindo que fosse permitido que Orígenes desse algumas palestras em sua presença”. Por volta do ano 231, é convidado pelos bispos gregos a ir a Atenas discutir com os grupos de heréticos. De passagem, visita Cesaréia da Palestina, onde os bispos Teoctisto e Alexandre o ordenam sacerdote. De volta a Alexandria, Demétrio se irrita profundamente com esse fato e, reunindo um pequeno concílio, o exila do Egito e, pouco depois, o suspende da ordem sacerdotal. Orígenes vai, então, a Cesaréia, onde é bem recebido pelos amigos palestinos, que, a exemplo de outras igrejas do Oriente, não dão importância alguma à sentença de Demétrio.
Moderno a seu tempo, Orígenes dirige um tipo de escola para “simpatizantes” do cristianismo, ou seja, jovens pagãos que queriam entender melhor o que a nova religião pregava, e que Orígenes apresentava-lhes a visão cristã dos grandes problemas filosóficos. Entre suas muitas viagens, uma feita à Jordânia reconduz o bispo Berilo de Bostra à ortodoxia, e aproveita para discutir com um grupo de cristãos que afirmavam que a alma morre com o corpo e ressuscita com ele. Entretanto, nova perseguição irrompe sob o comando do imperador Décio, em 250, e Orígenes é preso e torturado, não com o fim de matá-lo, mas para que renegasse a sua fé, visto que uma eventual apostasia sua produziria efeitos notáveis nos demais fiéis, já que, dos seus contemporâneos, era a figura mais relevante do cristianismo. Pouco tempo depois, Décio morre e Orígenes é liberto, morrendo pouco depois, aos 69 anos de idade, provavelmente em 254. No século XIII, o seu túmulo era ainda visível em Tiro, na igreja chamada do Santo Sepulcro.
Orígenes deixou uma obra gigantesca, sendo que o catálogo compilado por Eusébio dá conta de 2.000 escritos, enquanto Epifânio diz que Orígenes escreveu impressionantes 6.000 obras. O historiador Paul Johnson (ob. cit.) diz que “parece que trabalhava o dia inteiro e a maior parte da noite e era um escritor compulsivo. Até o intrépido Jerônimo, mais tarde, reclamaria: ‘alguém já leu tudo que foi escrito por Orígenes?’. Seus comentários às escrituras eram tão vastos que nenhum foi transmitido na íntegra. Alguns foram perdidos, outros sobrevivem como paráfrases drásticas”. Eusébio justifica essa alta produtividade com o fato de que “sete estenógrafos que se revezavam em intervalos definidos, e outros tantos escreventes de livros e mulheres calígrafas” (“Histórica Eclesiástica”, VI, 23, 2), provavelmente patrocinados por Ambrósio. De qualquer maneira, 800 desses escritos chegaram até nossos dias. Poucos, entretanto, trazem os textos originais, já que a maioria foi expurgada pelas controvérsias origenistas posteriores, e outra parte sobreviveu apenas por meio de traduções sofríveis. Dentre essas obras, alguma se destacam. A Hexapla é a primeira tentativa cristã de estabelecer o cânon da Escritura de uma maneira minimamente científica (dentro do que se podia considerar ciência à época). A maior parte dela foi perdida, e consistia numa exposição paralela, em seis colunas, do texto hebraico do Antigo Testamento, da sua transliteração em letras gregas, e as quatro versões gregas que circulavam naquela época: a de Áquila, a de Símaco, a Septuaginta e a tradução de Teódoto. Em alguns trechos, como em alguns Salmos, diante de outras versões, Orígenes expandia a Hexapla para nove colunas. A Hexapla tomou a maior parte da vida de Orígenes, que sempre acrescentava, corrigia ou revia algumas posições.
“Scholia” é a obra em que Orígenes expõe alguns comentários breves sobre determinados textos em que a interpretação parecia difícil ou interessante. Apenas um ou outro fragmento dessa obra chegou até nós. Em suas Homilias, escritas depois do rompimento com Demétrio, encontra-se a natureza da pregação de Orígenes, que se revela mais como uma exortação moral, sem fazer profundas exegeses do texto bíblico. Boa parte das Homilias se perdeu, lamentavelmente, mas restaram muitos dos seus Comentários (Evangelho de São Mateus, de São João, sobre a Epístola aos Romanos, sobre o Cântico dos Cânticos, etc.), que são as principais fontes pelas quais é possível conhecer o método exegético de Orígenes, que, por sua vez, é uma chave importante para a compreensão do restante de sua teologia.
No campo apologético, Orígenes escreveu “Contra Celsum”. Celso era um filósofo pagão, que havia escrito uma obra anti-cristã chamada “O Verdadeiro Verbo”, que tinha alcançado significativa repercussão, sobretudo por ter sido bem escrito e fundamentado. Foi Ambrósio que pediu a Orígenes que refutasse Celso. A princípio, ele não teve muito interesse, mas finalmente decidiu aceitar os apelos insistentes de Ambrósio e refutou um por um os argumentos de Celso, fazendo dessa obra um testemunho interessante de como foi travado o combate entre cristãos e pagãos no começo da Igreja.
Por fim, a sua ora mais importante é “De principiis” (“Sobre os primeiros princípios”), em que Orígenes faz uma exposição sistemática de sua teologia, cuja maior parte sobreviveu por meio de uma tradução para o latim feita por Rufino, que, como era relativamente comum àquela época, tomou a infeliz liberdade de “corrigir” algumas opiniões de Orígenes. Quanto a essas traduções, há uma certa controvérsia: alguns dizem que Rufino alterou o pensamento de Orígenes para esconder suas idéias, que ele considerava por demais audaciosas para a ocasião, enquanto outros dizem que Rufino fez isso para favorecer o movimento origenista a partir do séc. IV, que distorceu e usou a seu bel prazer as profundas especulações teológicas de Orígenes.
Apesar de ter se castrado em obediência a uma interpretação literal da Bíblia, o fato é que Orígenes estava muito longe de ser literalista em sua interpretação do texto sagrado, sendo que ele acreditava firmemente na inspiração literal de cada palavra da Escritura. Para ele, não havia nela nenhuma palavra ou letra gratuita, que não contivesse em si um mistério. Essa é a principal razão que levou Orígenes a dedicar tanto tempo à Hexapla, ou seja, a restaurar o texto bíblico original.
Entretanto, o verdadeiro sentido da Bíblia nem sempre era aquele que resultava de uma interpretação literal. Para ele, havia uma necessidade premente de se interpretar a Bíblia ‘espiritualmente’, pelo que Orígenes desenvolveu a doutrina (que havia recebido ainda incipiente de Clemente) de que um texto bíblico tem – ou pode ter – três sentidos diferentes, mas complementares: um sentido literal ou físico, um sentido moral ou psíquico, e um sentido intelectual ou espiritual. Esses princípios exegéticos são apresentados em “De principiis” IV 2,4-5: “de três maneiras devemos gravar na alma os sentidos das Santas Escrituras: o simples deve edificar-se com a carne da Escritura – assim chamamos a concepção imediata – o que progrediu um pouco edifica-se mais com sua alma, e o perfeito... se edifica com a lei espiritual, que contém a sombra dos bens futuros (Cl 2:17; Hb 10:1). Pois como o homem se compõe de corpo, alma e espírito, assim também a Escritura... Mas como existem certos textos da Escrituras que... não contêm de maneira alguma o corporal, em muitas passagens devemos buscar unicamente a alma e o espírito da Escritura” (citado por Hubertus R. Drobner no “Manual de Patrologia”, Ed. Vozes, 2003, pág. 147).
Todavia, nem sempre Orígenes seguia essa tri-partição, já que se preocupava muito mais com as interpretações alegóricas. Se ele interpretava um milagre relatado no Novo Testamento, por exemplo, primeiro fazia questão de ressaltar a efetiva existência literal daquele milagre para, somente depois, tirar do relato as possíveis alegorias. Por isso, deu tanta importância à tipologia do Velho Testamento, fazendo do sacrifício de Isaque, por exemplo, um ‘tipo’ ou ‘figura’ da paixão de Cristo, bem como da circuncisão como um tipo de batismo. A respeito da tipologia origenista, Drobner (ob. cit.) afirma: “como, em virtude da inspiração verbal pelo Espírito Santo, toda palavra do texto bíblico deve ter um sentido digno e adequado a Deus, este deve ser buscado nos planos mais elevados. O sentido moral tira da Bíblia, além dos mandamentos e prescrições verbais nela contidos, as orientações de ação para a vida cristã, como é esperado pela comunidade sobretudo na pregação. O sentido místico, enfim, cumpre três funções: abre tipologicamente o Antigo Testamento como profecia para Cristo; interpreta as declarações de fé da história da salvação; e explica a esperança escatológica dos cristãos”.
Para Orígenes, o texto bíblico estava impregnado de profundos mistérios em cada palavra, que deviam ser extraído através das alegorias, criando um verdadeiro dicionário de interpretações alegóricas, como “cavalo” na Bíblia significando “voz”; “hoje” significando “o tempo presente”; “fermento” significando “ensino”; “nuvens” significando “santos”, e por aí vai. Exemplos de sua interpretação bíblica:
Moisés recebeu a ordem de tocar o mar com seu bastão, para que ele se dividisse e se retirasse, dando passagem ao povo de Deus, e que esse elemento das águas, que, para ele, era objeto de temor, obedecesse à vontade divina, formando “à direita e à esquerda” uma “muralha” que não fosse um perigo, mas uma proteção. As vagas refluíram copiosamente, e a água recuada sobre si mesma se encurvou: tornou-se sólida, e o fundo do mar era só areia.
Compreendei aqui qual é a bondade do Deus criador. Se obedeceis à sua vontade, se seguis a sua lei, ele obriga até os elementos a agir contra a sua própria natureza para vos servir. Ouvi os antigos dizerem que, nessa passagem do mar, as águas se dividiram em tantas frações quantas são as tribos dos filhos de Israel, e que cada tribo teve seu caminho aberto no mar; a prova estaria nestas palavras do salmo: “Aquele que dividiu o mar Vermelho em frações”... Acreditei que é piedoso não omitir essa observação dos antigos sobre as divinas Escrituras.
Qual é o ensinamento que nos é dado aqui? Já dissemos acima a interpretação do Apóstolo. Ele chama a isso “um batismo, realizado em Moisés, na nuvem e no mar” a fim de que vós, que fostes batizados em Cristo, na água e no Espírito Santo, saibais que os egípcios seguem vossas pegadas e querem re conduzir-vos à vossa antiga servidão, isto é, para junto dos “príncipes deste mundo” e dos “espíritos maus”, de quem fostes escravos. Eles procuram alcançar-vos, mas vós desceis à água e saís dela sãos es salvos; tendo lavado as sujeiras dos pecados, subis como “homem novo”, prontos para cantar o “cântico novo”...
Porque extermina o egípcio aquele que não faz “as obras das trevas”; extermina o egípcio aquele que não vive segundo a carne, mas segundo o Espírito; extermina o egípcio aquele que expulsa de seu coração os pensamentos manchados e impuros ou não os recebe de modo algum em seu coração, segundo a palavra do Apóstolo: “Tomando o escudo da fé para extinguir todos os dados inflamados do Maligno”. É assim que ainda hoje podemos ver “os cadáveres dos egípcios estendidos na margem”, seus carros e seus cavalos submersos. Podemos ver submerso o faraó em pessoa se vivemos com bastante fé, para que “Deus abata prontamente Satã aos nossos pés” por Jesus, nosso Senhor.
"“Homilias sobre o Êxodo”, V, 5 tradução J. Fortier (“Para Ler os Padres da Igreja”, Adalbert G-Hamman, Ed. Paulus, 1995, pág. 65)"
Uma meditação de Orígenes:
Se compreendemos qual é a embriaguez dos santos e como ela lhes é prometida para sua alegria, vejamos agora como o nosso Salvador não bebe mais do vinho até que beba com os santos “o vinho novo” no Reino de Deus.
Agora meu Salvador ainda se aflige com meus pecados. Meu Salvador não pode estar alegre enquanto permaneço na iniqüidade. Por que não pode? Porque ele é “advogado por nossos pecados junto do Pai”, como declara João, íntimo seu, dizendo que, “se alguém pecou, temos como advogado, junto do Pai, Jesus Cristo, que é sem pecado e que é propiciação por nossos pecados”. Como, pois, poderia ele beber o vinho da alegria, ele, que é advogado por nossos pecados, sendo que eu o contristo, pecando? Como poderia ele estar alegre; ele, que se aproxima do altar como propiciação por mim, pecador; ele, a cujo coração sobe sem cessar a tristeza e minhas faltas? “Beberei desse vinho convosco no Reino de meu Pai” – diz ele. Enquanto não agirmos de maneira a subir ao Reino, ele não pode beber, sozinho, desse vinho; ele, que prometeu beber dele conosco. Ele está, pois, na tristeza enquanto persistimos no desgarramento. Com efeito, se seu apóstolo “chora sobre alguns que pecaram e não fizeram penitências por suas faltas”, que dizer dele, que é chamado filho do amor, que se aniquilou por causa do amor que tinha por nós, que não procurou a sua vantagem, apesar de ser igual a Deus, mas procurou o nosso bem e, por isso, como que se esvaziou de si mesmo? Tendo, pois, procurado assim o nosso bem, agora não nos procuraria mais, não pensaria mais em nossos interesses, não sofreria mais por causa de nossos desgarramentos? Não choraria mais sobre a nossa perdição, ele, que chorou sobre Jerusalém e lhe disse: “Quantas vezes eu quis reunir teus filhos como a galinha reúne seus pintinhos, e tu não quiseste?”. Aquele que tomou sobre si as nossas feridas e sofreu por causa de nós como médico de nossas almas e de nossos corpos negligenciaria agora a corrupção de nossas chagas? ... Portanto, por nós todos, ele está, diante de Deus intercedendo por nós; está no altar, oferecendo a Deus uma propiciação em nosso favor... Ele espera, pois, que nós nos convertamos, que imitemos seu exemplo e que sigamos suas pegadas para se alegrar então conosco e “beber conosco o vinho no Reino do Pai”.
"Homilia VII sobre Levítico, tradução H. de Lubac (“Para Ler os Padres da Igreja”, Adalbert G-Hamman, Ed. Paulus, 1995, pág. 63)"
Entretanto, Orígenes ajudou a formular boa parte da doutrina ortodoxa cristã. Como lembra Justo L. González (“Uma História do Pensamento Cristão”, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. I, págs. 210/1), Orígenes sempre fez questão de frisar que Deus não pode ser compreendido por qualquer inteligência humana, porque “Deus é invisível, não apenas no sentido físico, mas também no sentido intelectual, pois não há mente que seja capaz de contemplar a essência divina. Não importa quão perfeito seja nosso conhecimento sobre Deus, devemos constantemente nos lembrarmos que Deus é muito mais elevado do que qualquer coisa que nossa inteligência possa conceber (De principiis, 1.1.5). Deus é a natureza absoluta e intelectual, além de toda definição de essência (Contra Celso 7.38). A linguagem antropomórfica que a Escritura aplica a Deus deve ser entendida alegoricamente, como uma tentativa de nos mostrar alguma faceta da maneira pela qual Deus se relaciona com a criação e com a humanidade. Por outro lado, se há uma coisa que podemos dizer sobre Deus em um sentido quase literal, é que Deus é Um (De principiis 1.1.6). Unidade absoluta, aquela unidade que é diametralmente oposta à multiplicidade do mundo transitório – e que era um dos temas característicos do platonismo contemporâneo – é o principal atributo do ser de Deus. Contudo, este Um inefável também é o Deus triúno da regra de fé da Igreja. Orígenes não apenas conhecia e freqüentemente usava o termo “trindade”, como também contribuiu para o desenvolvimento da doutrina trinitariana, uma vez que sua teologia é uma das principais fontes dos debates trinitarianos que sacudiriam a igreja quase um século mais tarde”.
E não só sobre a Trindade pronunciou-se Orígenes. Justo L. González (ob. cit., pág. 217) mostra o seu cuidado em explicar a doutrina da encarnação:
“Em sua encarnação, o Verbo de Deus se uniu a um intelecto não caído, e por meio dele a um corpo que em nada era diferente do restante dos corpos humanos, embora fosse de origem diferente (De principiis, 2.6.3-4). Ao afirmar que o Verbo se uniu não apenas a um corpo humano, mas também a um intelecto criado – que, embora não caído, é em sua essência semelhante às almas humanas – Orígenes teve o discernimento da necessidade de pressupor em Cristo, não apenas um corpo humano, mas também um intelecto humano.
A divindade e a humanidade estão unidas de tal modo em Cristo que podemos atribuir à primeira, ações e condições que correspondem propriamente à última, e vice-versa. Essa é a doutrina da ‘communicatio idiomatum’, ou “comunicação de propriedades”, que mais tarde se tornaria um dos principais dogmas da cristologia Alexandrina. Orígenes insiste que não podemos entender Cristo simplesmente em termos de sua humanidade ou de sua divindade. “Se ele [o intelecto humano] o considera como Deus, vê um mortal; se o considera como homem, ele o vê retornando da sepultura, depois de derrotar o império da morte” (De principiis 2.6.3). A natureza divina e humana existem em um único ser, embora seja impossível explicar como isso pode acontecer. Esse é o maior mistério da fé.
Mas de todos os atos maravilhosos e poderosos relatados sobre Ele, este contudo sobrepuja a admiração humana e está além do poder da fragilidade mortal de entender ou sentir: como esse poderoso poder da majestade divina, o próprio Verbo do Pai, a própria Sabedoria de Deus, por meio da qual foram criadas todas as coisas, visíveis e invisíveis, pode ter existido dentro dos limites deste homem que apareceu na Judéia; como é possível crer nisso? Mais ainda, que a Sabedoria de Deus pode ter entrado no ventre de uma mulher, e ter nascido um infante, e ter proferido choros como o choro das crianças pequenas.”
Ainda sobre Orígenes, comenta o historiador Paul Johnson (ob. cit., págs. 75/6):
“O efeito da obra de Orígenes foi a criação de uma nova ciência, a teologia bíblica, por meio da qual cada frase das escrituras era explorada sistematicamente em busca de significados ocultos, alegorias e assim por diante. E, com base nos elementos dessa vasta erudição das escrituras, ele erigiu, em seu livro “Sobre os Princípios”, uma filosofia cristã a partir da qual era possível interpretar todos os aspectos do mundo. Até então, os cristãos ou desprezavam a filosofia, como irrelevante ou pagã, ou simplesmente apropriavam-se de Platão e outros escritores, categorizavam-nos como cristãos incipientes e aplicavam a superestrutura paulina sobre esses fundamentos. Orígenes desdenhou essa tradição, repudiou os filósofos gregos como falsos e construiu uma nova síntese, a partir de conhecimentos sagrados e profanos. Assim, ofereceu ao mundo a primeira teoria do conhecimento concebida por completo de dentro de assunções cristãs, prefigurando tanto os enciclopedistas, como Isidoro de Sevilha, quanto as ‘summae’ sistemáticas dos escolásticos medievais. Com Orígenes, o cristianismo deixou de ser um prolongamento do mundo clássico e tornou-se, intelectualmente falando, um universo próprio. Estava também, pelo menos até então por implicação, tornando-se uma sociedade própria. Orígenes foi o primeiro teórico do clericalismo, bem como de outros aspectos do cristianismo maduro. Suas próprias relações com a Igreja eram tempestuosas. Não pôde ser ordenado por seu próprio bispo de Alexandria; despertou críticas clericais ao pregar na Palestina como leigo; foi ordenado acanonicamente e, portanto, era atacado com frequência por propagar uma doutrina falsa. Não tinha respeito pelo clero como indivíduos, e, em geral, apresentava um quadro desanimador de sua avareza e ambição. Mas isso, de forma alguma, solapa sua exaltação da dignidade e poder do ofício eclesiástico. Com efeito, pode-se dizer que ele se permite condenar os clérigos justamente por acreditar na indestrutibilidade de sua posição como casta. Orígenes aceitava uma distinção absoluta entre clero e laicidade. Atribuía-lhe um sabor jurídico. Retratava a Igreja, como parte de sua teoria do conhecimento universal, como uma entidade sociológica sagrada. A analogia era com um Estado político. Claro que a Igreja tinha de possuir seus próprios príncipes e reis. É evidente que estes governariam suas congregações muito melhor que os funcionários estatais correspondentes. Sua função era infinitamente mais alta e sagrada, já que administravam coisas espirituais, mas seu status era análogo aos de juízes e governantes seculares e, assim sendo, a laicidade devia-lhes reverência e obediência, ainda que fossem homens inadequados ou ruins.”
Não por acaso, Orígenes foi considerado o maior teólogo da antiga escola de Alexandria. Seu pensamento, ou melhor, suas especulações extremamente audaciosas para a época, granjearam-lhe um número imenso de discípulos, mas, talvez em proporção muito maior, uma quantidade enorme de inimigos. Consequentemente, muitas posições suas foram condenadas em vários sínodos de diferentes épocas. Mesmo tendo admiradores do porte de Gregório do Ponto, Eusébio de Cesaréia, Dionísio, o Grande, Atanásio, dos Pais Capadócios (Basílio, o Grande, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa), além de Ambrósio de Milão e Hilário de Poitiers, nenhum deles se animou a defender as suas idéias mais avançadas para a época, sendo que a série de condenações culminou com o concílio convocado por Justiniano em Constantinopla, no ano de 553. Ato contínuo, a polícia imperial confiscou e destruiu boa parte dos escritos de Orígenes, razão pela qual muito do seu pensamento original (com o perdão da redundância) se perdeu.
Entretanto, algo importante sobre Orígenes foi (convenientemente ou não) sublimado e esquecido com todas as controvérsias teológicas que se lhe seguiram, ou seja, o fato de que Orígenes, dada a sua genialidade, trabalhava com hipóteses, exercendo aquilo que melhor sabia fazer: especular. Muitas de suas ideias eram apenas idéias, especulações, indagações que seu espírito investigativo requeria de seu alto nível intelectual. Suas idéias eram expostas de boa fé, mas talvez fossem avançadas demais para a sua época, e tenha lhe faltado o senso de oportunidade e a prudência para perceber que essas mesmas idéias poderiam ser-lhe atribuídas como dogmas, por pessoas que se valeriam de seu nome para justificar posições com as quais Orígenes sequer havia pensado. O próprio Orígenes fazia questão de distinguir entre as suas proposições de fé, aquelas que eram aceitas e defendidas pela ortodoxia da Igreja, e aquelas que eram meramente hipotéticas, como sugestões para que seus discípulos e leitores nelas trabalhassem, a fim de se chegar a um consenso.
Um exemplo disso é a sua posição sobre as almas, que alguns seguidores, dizendo-se “origenistas”, passaram a interpretar como uma prova da reencarnação. Entretanto, Orígenes era contra a doutrina da reencarnação. Nos seus Comentários à Epístola aos Romanos, ele chegou a considerar a teoria do filósofo Basílides, o qual queria basear a reencarnação nas palavras de São Paulo: *Vivi outrora sem lei...* (Rm 7,9). Observa então Orígenes: “Basílides não percebeu que a palavra *outrora* não se refere a uma vida anterior de S. Paulo, mas apenas a um período anterior da existência terrestre que o Apóstolo estava vivendo”. Desta forma, concluía Origenes, “Basílides rebaixou a doutrina do Apóstolo ao plano das fábulas ineptas e ímpias”. Entretanto, muitos pretensos discípulos de Orígenes professaram como verdade de fé não somente a preexistência das almas (delicadamente insinuada por Orígenes), mas também a reencarnação (que o mestre não chegou de modo algum a propor, nem como hipótese). Sobre essa discussão, leia o excelente texto de D. Estevão Bettencourt, no link:
Para finalizar, uma distinção é essencial: uma coisa é Orígenes; outra muito diferente é o movimento que se tornou conhecido como “origenismo”. O Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs (Ed. Paulus – Ed. Vozes, 2002, pág. 1051) distingue 6 fases do movimento:
1) o próprio Orígenes, ou seja, o conjunto de suas especulações que, com as incompreensões de seus sucessores, constituiu-se na base do origenismo posterior;
2) o segundo momento é dado pelo origenismo tal como o entendem seus detratores entre o séc. III e o IV, Metódio, Pedro de Alexandria e Eustácio de Antioquia: a estes responde a “Apologia de Orígenes”, escrita por Pânfilo. Além da preexistência da alma e da apocatástase (a redenção e salvação final e universal de todos os seres), são contestadas, por uma série de mal-entendidos, a doutrina do corpo ressuscitado e a criação eterna;
3) o dos monges egípcios e palestinos da segunda metade do séc. IV, exposto principalmente por Evágrio Pôntico nos “Kephalaia Gnostica”. Evágrio fez uma “escolástica” do pensamento de Orígenes, suprimindo as tensões internas e omitindo grande parte da doutrina para construir com o restante um sistema: era o modo mais seguro para torná-lo herético, pois a heresia é a supressão e o corte das antíteses que caracterizam a doutrina cristã;
4) o mais importante é o origenismo como o supõem os antiorigenistas dos séculos IV-V, Epifânio, Jerônimo e Teófilo de Alexandria (ao passo que Orígenes é defendido por João de Jerusalém e por Rufino de Aquiléia). Suas proposições devem passar pelo crivo da crítica, pois lhes falta sobretudo senso histórico, o que é bem normal para sua época: não tinham noção alguma do desenvolvimento do dogma, a cuja consciência se chegou bem recentemente, e não julgavam Orígenes a partir de seu tempo. Além do mais, não primavam nem pela compreensão filosófica nem pela teológica. Na realidade, não apreenderam a mudança de mentalidade que separava a Igreja em minoria, perseguida, do tempo de Orígenes, e a Igreja triunfante de sua época, principalmente no que diz respeito à importância de uma cristianização da filosofia para a pastoral do mundo e da necessidade de uma teologia “em exercício”, isto é, em procura.
5) o evagrianismo dos monges palestinos da primeira metade do séc. VI, que viviam nos conventos da obediência de São Sabas, a Grande Laura e a Nova Laura. A principal manifestação de sua doutrina é o “Livro de Santo Hieróteo”, obra do monge sírio Estevão bar Sudayle, que agrava a “escolástica” origenista até chegar a um panteísmo radical.
6) o do tempo da condenação do imperador Justiniano. Os documentos a respeito do Concílio de Constantinopla II não fazem referência expressa a Orígenes, cujo nome foi muito provavelmente acrescentado depois ao cânon 11 (acompanhando os anátemas a Ário, Nestório e Apolinário, entre outros), já que nem o esboço do Imperador, nem a carta em que o papa Virgílio aprova o concílio, tocam no nome de Orígenes. Formalmente, Orígenes não foi considerado um herético, mas boa parte de seus escritos se perdeu depois da condenação dos origenistas. Só no século XX é que a espiritualidade de Orígenes é redescoberta por W. Völker (1931) e a compreensão de sua exegese é obra de H. de Lubac (1950), fazendo com que sua personalidade reencontrasse, 1700 anos depois, suas dimensões essenciais. Atualmente, Orígenes é, dentre os escritores eclesiásticos da antiguidade, o mais lido depois de Agostinho.